Concluída sequência do genoma humano
Guy Clavel
France Presse
De Washington
A empresa americana Celera Genomics anunciou ontem que completou a sequenciação do genoma humano, um avanço significativo na decodificação do código genético do homem. A Celera começou o trabalho em setembro passado e empregou um método computacional revolucionário para sequenciar o genoma em fragmentos. O próximo passo é ordenar os gens e identificar a função de cada um.
Agora vamos entrar na fase de montagem. Acreditamos que o processo levará de três a seis semanas, diz o presidente da Celera Genomics, Craig Venter. A montagem a que se refere Craig consiste em ordenar os 100 mil genes do homem para finalmente ter o código genético humano completo. Formado por 3 bilhões de pares de aminoácidos, o código genético determina a estrutura e o funcionamento do organismo humano. Venter, cujo método foi muito criticado pela comunidade científica, provou que tinha condições de concluir a operação ao anunciar o sequenciamento, usando o mesmo método, dos 13.600 gens da mosca drosófila (mosca-de-frutas).
Depois da montagem começa o processo de identificação de cada gen para determinar qual o papel dele no funcionamento do corpo humano. O trabalho será longo porque será preciso também descobrir como os gens atuam em conjunto. Acredita-se, por exemplo, que haja pelo menos três tipos de gens implicados no câncer. Será preciso também explicar as diferenças genéticas entre os seres humanos, desde a cor dos olhos até as predisposições genéticas para doenças. A Celera está trabalhando no sequenciamento de outras cinco pessoas, homens e mulheres de origens étnicas distintas, para ajudar nessa outra fase do trabalho.
A Celera Genomics tem uma grande vantagem sobre seu principal competidor, o Projeto Público de Genoma Humano, dirigido pelo Instituto Nacional de Saúde e que usa os métodos tradicionais de sequenciamento. Quando tiver conseguido ordenar os fragmentos, a Celera pretende divulgar a sequência completa, como se comprometeu no início das pesquisas.
No mês passado, o preidente americano Bill Clinton e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fizeram um apelo aos cientistas do mundo inteiro, para que tornem públicas todas as informações referentes à decodificação do genoma. Mas os dois admitiram a necessidade de patentear algumas conquistas da terapia genética. Pensando nisso, a Celera se associou aos laboratórios Rhône-Poulenc Roher para criar medicamentos e terapias para o câncer e a asma.
Por trás da conquista do genoma humano estão grandes interesses científicos e econômicos. O mundo médico acredita cada vez mais que a medicina do futuro vai se basear na genética: ao saber-se a função de cada gen no organismo, será muito mais fácil aplicar terapias genéticas à determinadas enfermidades. Depois que forem determinados os gens responsáveis pela predisposição a determinadas doenças, os médicos poderão fazer tratamentos preventivos desde o nascimento da pessoa. O campo de aplicação dessas terapias é vastíssimo: aids, doenças genéticas, hereditárias, neuro-musculares, cardiovasculares e câncer.
A Celera Genomics prossegue a todo vapor na pesquisa genética. Depois de ter conseguido decifrar o código genético da mosca drosófila e, em segmentos, o do homem, a empresa também anunciou ontem que já iniciou o sequenciamento do código genético do rato. Venter, presidente da Celera, diz que este é um momento apaixonante e uma oportunidade excepcional.





