Comunistas admitem assumir o poder
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de setembro de 1998
Christophe Beaudufe France Presse 
O Partido Comunista (PC) russo propôs, ontem, formar o próximo gabinete, retomando a iniciativa em meio à crise política e ante o silêncio de Boris Yeltsin, que se mostra no momento incapaz de designar um primeiro-ministro aceitável para o Parlamento. O PC publicou um manifesto na imprensa, dizendo ao povo que está disposto a participar de um governo de confiança popular e assumir a responsabilidade de tirar o país da crise. Este governo seria controlado pela Assembléia Federal (as duas Câmaras do Parlamento), à qual prestaria contas, destaca texto do PC. Os comunistas também revelam o programa que seria aplicado para, acima de tudo, garantir aos cidadãos da Rússia o direito ao trabalho.
O programa prevê nacionalizar os setores industriais estratégicos, proporcionar aos russos o direito ao ensino, atendimento médico gratuito, e a segurança social, controlar severamente a atividade dos bancos comerciais, restaurar uma forte produção nacional, reabrir fábricas fechadas, subvencionar a agricultura e a produção e instaurar monopólios nos setores de energia e comunicações.
Convencido de que o povo não suportará por muito mais tempo esta situação, o líder do PC russo, Guennadi Ziuganov, alertou mais uma vez contra o risco de revoltas populares num prazo muito curto. O país atravessa a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial, disse.
É possível que haja manifestações em massa nos próximos dias. E, com certeza, estaremos liderando essas ações, acrescentou Ziuganov, que defende um protesto organizado.
O chefe do PC pede há três semanas a formação de um governo de confiança popular, mas nunca havia dito tão claramente que os comunistas (maioria na Duma junto com seus aliados) estavam dispostos a tomar as rédeas da nação.
Enquanto isso, a Rússia vive sem governo desde 23 de agosto e o presidente Boris Yeltsin continua refletindo sobre o nome do próximo candidato que proporá à Duma para o cargo primeiro-ministro.
Ao que parece o presidente russo vacila muito sobre se deve ou não apresentar pela terceira vez o candidato e primeiro-ministro designado Viktor Chernomyrdin, que corre o risco de ser rejeitado outra vez, desencadeando de imediato um grave conflito político.
Entre os candidatos capazes de serem aceitos pela oposição de esquerda, os comunistas citaram os nomes do ministro das Relaçõe Exteriores, Evgueni Primakov, do pragmático prefeito de Moscou, Iuri Lujkov, e do ex-ministro da Indústria, o comunista Iuri Masliukov.
Os analistas acham que Yeltsin apresentará finalmente um candidato de consenso. Mas a prolongada reflexão do Kremlin indica que as negociações são difíceis.


