Índios tapirapés e carajás, no norte de Mato Grosso, são aliciados por contrabandistas de peixe do Pará. Os pescadores fornecem aos índios alimentação e redes a preços superfaturados e descontam tudo na hora da compra do peixe, o que acaba prendendo os índios a dívidas impagáveis, numa situação análoga à de trabalho escravo.
A acusação é do Comitê Insterinstitucional de Fiscalização Ambiental (Cifa), criado pela Fema (Fundação Estadual de Meio Ambiente) de Mato Grosso e que atua em conjunto com Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Funai (Fundação Nacional do Indio), Polícia Florestal, outros órgãos públicos e organizações não-governamentais.
‘‘É um sistema que leva os índios à escravidão’’, disse o coordenador da operação que confirmou a pesca ilegal em Santa Terezinha (MT), a 1.200 km de Cuiabá, Paulo José Barbosa. O economista da Funai de Brasília Vicente Luiz de Almeida, que acompanhou a operação em novembro, considerou o caso ‘‘gravíssimo’’ e ‘‘uma escravidão’’.
Os fiscais citaram o caso de um índio tapirapé, Pedro Tiaureté, que declarou estar devendo mais de R$ 1.000 aos pescadores, por venda adiantada de gêneros alimentícios e redes. Os pescadores compram o litro do óleo de cozinha a R$ 0,90 nas cidades e os revendem nas aldeias a R$ 5. Em contrapartida, o quilo do pirarucu é adquirido dos índios a R$ 0,50 e revendido nas cidades a até R$ 5.
O peixe mais procurado pelos pescadores é o pirarucu, conhecido como ‘‘bacalhau de água doce’’, que pode atingir 1m60 e render 40 quilos de carne. Sua pesca é proibida no Pará entre outubro e maio e, em Mato Grosso, entre novembro e janeiro. A tarefa dos índios consiste em pegar o peixe com rede e o levar até a divisa com o Pará, por cerca de 60 km de barco pelo rio Araguaia, margeando a ilha do Bananal.
Segundo a equipe do Cifa, os receptadores aguardam os índios na divisa. O peixe é colocado em caminhões e levado até Belém, onde é vendido livremente. Os fiscais disseram que a carga é ‘‘esquentada’’ em escritórios do fisco no interior do Estado, ou seja, os comerciantes ilegais obteriam notas fiscais que regularizam a origem do pescado.
O Cifa também averigua a possibilidade de parte desse pescado entrar no Tocantins e acabar parando em Goiânia, Brasília e mesmo São Paulo. Os pescadores fornecem aos índios redes de 50 a 60 metros, o que possibilita pegar até cinco toneladas de pirarucu num dia. Após receber a rede, o índio fica comprometido em dividir com o pescador tudo o que pegar.
A equipe do Cifa encontrou, em novembro, pelo menos duas toneladas de pirarucu armazenadas numa casa na comunidade de Lago Grande, onde há índios e brancos, em Santa Terezinha. Na operação anterior, em setembro, os fiscais acharam 87 cabeças de pirarucu em uma casa.
A pesca predatória do pirarucu está repercutindo no equilíbrio do rio Araguaia e afluentes, segundo os fiscais. O peixe é o maior inimigo natural da piranha, cuja população tem crescido nos rios a cada ano, o que pode afetar a reprodução de outras espécies.
O diretor da escola da reserva indígena Tapirapé/Carajá, e filho do cacique da aldeia, Kaoewygi Reginaldo Tapirapé, confirmou que índios da sua tribo foram aliciados por comerciantes ilegais. Reginaldo afirmou que a aldeia está ‘‘prensada’’ entre fazendas de pecuária, o que provoca a diminuição da caça e obriga os índios a saírem da aldeia para obter dinheiro com a venda de peixe e também de tartarugas.

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