Associated Press
De Díli, Timor Leste
A comissão parlamentar indonésia encarregada de analisar a questão de Timor Leste, a ex-colônia portuguesa anexada pelo país em 1976, recomendou ontem que o plenário da Assembléia Consultiva do Povo (MPR) ratifique o resultado do referendo pelo qual os timorenses optaram pela independência, no dia 30 de agosto.
O decreto que incorporou o território à Indonésia só pode ser anulado por votação unânime, o que se tornou viável porque ontem todos os 11 grupos políticos representados na MPR endossaram a resolução do comitê e comprometeram-se a aprovar a separação.
Durante o debate na comissão, alguns parlamentares exigiram que Portugal renuncie a pretensões sobre a soberania em sua ex-colônia a fim de permitir que a ONU assuma provisoriamente a administração do território.
A anulação do decreto será votada amanhã, mesmo dia em que a MPR elegerá o novo presidente do país. Pela primeira vez na história do país o presidente da Indonésia não será um candidato escolhido por uma assembléia às suas ordens, mas o vencedor de uma eleição entre vários candidatos.
Sabe-se que o voto será secreto e individual, mas não há acordo sobre a natureza da maioria necessária para a eleição (absoluta ou relativa) e se haverá um ou vários turnos nas eleições.
O centro moderno da capital e os arredores da sede da assembléia já são palco de manifestações diárias, regularmente marcadas por violentos confrontos que, segundo a imprensa indonésia, causaram mais de 200 feridos em três dias no último fim de semana.
Três candidatos, inclusive o presidente atual, Jusuf Habibie, disputam o voto dos 700 membros da assembléia. Os outros dois são Megawati Soekarnoputri, cujo Partido Democrático Indonésio de Luta ganhou as eleições legislativas de junho passado e Abdurrahman ‘‘Gus Dur’’ Wahid, personalidade intelectual muçulmana moderada, apresentado por um conjunto de partidos minoritários islamitas. O general Wiranto, chefe do Exército, recusou a candidatura a vice na chapa de Habibie, o que torna muito difícil a situação do presidente. O exército se declarou ‘‘neutro’’, embora conte com representação no parlamento.
Já o líder timorense Xanana Gusmão afirmou ontem que pelo menos 65 pessoas foram massacradas no final de semana por milícias e tropas indonésias em um acampamento em Oekussi, no noroeste de Timor Leste, perto da fronteira com Timor Oeste. Ele disse que os corpos e as casas das vítimas foram queimados e pediu que a Força Internacional da ONU vá à região averiguar.
Gusmão iria regressar a Timor Leste no fim da semana, depois de a MPR ratificar a independência do território, mas ontem avisou que adiará a volta porque a Indonésia ainda não concedeu vistos para outros dirigentes independentistas.

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