Comissão acusa China de espionagem
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Paulo Sotero Agência Estado 
Espiões chineses penetraram nos principais laboratórios nucleares dos Estados Unidos nas últimas três décadas e obtiveram informações classificadas sobre todas as armas atômicas do arsenal americano, bem como sobre sistemas de direcionamento dos mísseis balísticos necessários para usá-las. O roubo desses segredos militares por Pequim só foi detectado na atual administração e é excepcionalmente provável que continue até hoje, disse ontem o deputado Christopher Cox, republicano da Califórnia, ao divulgar um relatório de 700 páginas com as conclusões de uma comissão parlamentar de inquérito que presidiu sobre o assunto a partir do ano passado.
A publicação do documento, apenas duas semanas após o bombardeio acidental da embaixada da China em Belgrado e a irada reação de Pequim, deverá ter profundas repercussões negativas nas relações sino-americanos, que já estavam abaladas pelo insucesso da negociação de acesso da China à Organização Mundial do Comércio durante a visita do primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji, a Washington, no mês passado.
De imediato, ela pode impossibilitar a aprovação pelo Congresso americano, no mês que vem, da renovação do status da China como um país que tem relações normais de comércio com os EUA. Além disso, a acusação contra China reforça as posições tanto do lobby anti-China no Congresso dos EUA como das forças antiocidentais no governo chinês e reduz ainda mais as chances de um acordo sobre a entrada da China na OMC antes da próxima reunião plenária da organização, programada para Seattle, em novembro.
O relatório Cox, que era esperado há semanas e conhecido em suas grandes linhas, descreve as implicações potenciais para os interesses americanos da operação de espionagem chinesa em termos tão ameaçadores que alguns congressistas chegaram a compará-la ao roubo do segredo da bomba atômica dos EUA pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. O deputado Norm Dicks, democrata do Estado de Washington e vice-presidente da CPI, disse que o trabalho documenta um dos piores fracassos de contra-espionagem da história do país.
France PresseMais um escândaloO presidente Bill Clinton passa a enfrentar um novo escândalo na reta final do seu governo de oito anos. A Casa Branca reconhece o bom trabalho da comissão do Congresso, mas acha precipitada algumas de suas conclusões, principalmente sobre a capacidade nuclear bélica chinesaDe acordo com o documento, a obtenção dos segredos dos nossos laboratórios nacionais de armas (Los Álamos e Sandia, no Novo México, e Lawrence Livermore, na Califórnia) capacitou a China a projetar, desenvolver e testar armas estratégicas modernas mais cedo do que seria possível de outra forma.
De posse desses segredos e de informações sensíveis sobre tecnologias de mísseis que lhes foram fornecidas por duas empresas americanas fabricantes de satélites, a Loral Corp. e a Hughes Electronics, a China saltou, em um punhado de anos, de uma capacidade nuclear dos anos 50 para projetos mais modernos de armas termonucleares, informa o relatório.
Embora a operação de penetração dos laboratórios tenha começado durante a administração do republicano Gerald Ford (1974-1976), foi nos anos 80, quando um outro presidente republicano, Ronald Reagan, estava empenhado na derrocada da União Soviética, que os chineses obtiveram informações classificadas sobre o projeto de sete ogivas nucleares dos arsenal americano, incluindo as duas mais modernas - sustenta o relatório.
Ao contrário do que acontece com as CPIs brasileiras, o trabalho de investigação e de redação do relatório da CPI americana foi conduzido sob o mais absoluto sigilo. Seu conteúdo era conhecido pela Casa Branca desde janeiro, quando a CPI encaminhou a Clinton uma cópia da primeira versão do documento. O relatório divulgado ontem é o resultado de uma longa e difícil negociação entre Cox e o executivo para permitir a divulgação dos resultados das investigações sem comprometer segredos de segurança nacional. Cerca de um terço do documento original não foi divulgado.
A administração Clinton respondeu com uma declaração escrita de três páginas do secretário de imprensa da Casa Branca, Joe Lockhart, na qual chamou o relatório de bom e sólido mas discordou das conclusões da CPI sobre o impacto da perda de tecnologia nuclear alegada. O executivo disse que tem dúvidas sobre a utilidade para os chineses das tecnologias que obtiveram.
Outro fato que pode colocar em dúvida a gravidade da situação denunciada pelo documento é o fato de o governo não ter feito acusação formal, até agora, contra o cientista americano de origem taiwanesa Wen Ho Lee, que foi despedido do laboratório de Los Álamos em março depois de passar três anos sob suspeita de ter espionado para a China. Wen, que transferiu informações sensíveis dos computadores de Los Álamos para seu computador pessoal, negou que seja ou tenha sido espião chinês.
Em Pequim, que sempre negou ter conduzido qualquer operação de espionagem contra os EUA, o porta-voz do ministério da Relações Exteriores, Zhu Bangzao, afirmou que as alegações foram fabricadas por pessoas que querem caluniar a China e denunciou sua desprezível tentativa fadada ao fracasso.


