Associated Press
Mais de 10 mil pessoas participaram ontem de uma manifestação de protesto contra o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, pedindo a sua renúncia e a convocação imediata de eleições gerais livres e democráticas.
Organizado por uma frente de partidos de oposição denominada Aliança por Mudanças, o ato público contra o governo - o primeiro desde início dos bombardeios do país pela aviação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 24 de março - ocorreu em Cacak, 150 quilômetros ao sul da capital iugoslava.
Vladan Batic, líder do Partido Democrata Cristão (PDC) e coordenador da frente oposicionista, abriu uma série de discursos, responsabilizando Milosevic pela ‘‘gravíssima situação’’ dos sérvios. ‘‘Ele pôs o mundo contra nós e envergonhou a gente’’, destacou. ‘‘Um milhão de desempregados, 1 milhão de refugiados e 1 milhão de fugitivos (que abandonaram a Sérvia). Viramos um lixão. Esse é o resultado da política de Milosevic.’’
Em um desdobramento incomum mas significante, uma unidade do exército iugoslavo ofereceu ônibus para ajudar no transporte de manifestantes oposicionistas a partir da cidade sérvia de Kragujevac.
A Aliança para Mudanças é integradada pelo PDC, Partido Democrata (PD), União Cívica (GSS) e Partido Social-Democrata (PSD). Batic pediu a liberalização dos meios de comunicação (controlados por Belgrado) e um governo de salvação nacional, que organize eleições livres e democráticas. O Movimento de Renovação Sérvio (SPO), do dirigente liberal Vuk Draskovic, não aderiu às manifestações. Segundo Draskovic, os protestos foram organizados por políticos que fugiram do país durante os bombardeios.
Os líderes oposicionistas discursaram, repetindo as acusações e exigências do coordenador da Aliança para Mudanças. Considerado inexpressivo por Belgrado (Milosevic ainda é, segundo pesquisas, a personalidade política de maior expressão no país), o grupo oposicionista conta com um forte aliado: a Igreja Ortodoxa sérvia, que está se aproximando a cada dia mais da Otan.
Simultaneamente ao ato público de Cacak, Milosevic lançava em Belgrado um programa de reconstrução do país, com prioridade para o setor habitacional. ‘‘Vamos reerguer todas as casas destruídas pelo bombardeio até novembro’’, prometeu ele. ‘‘Vamos igualmente restabelecer os vínculos econômicos e culturais com todos os países, especialmente os progressistas e democráticos, e adotar um sistema aberto de economia de mercado.’’
Segundo especialistas em economia, o presidente iugoslavo não terá condições de cumprir as metas anunciadas sem uma substancial linha de crédito internacional - o que a Iugoslávia não terá enquanto ele estiver no poder.
Em Pequim, o porta-voz da chancelaria chinesa, Zhang Qiyue, desmentiu rumores de que Milosevic, indiciado por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, já teria obtido das autoridades chinesas uma promessa de asilo. ‘‘Não há fundamento nisso.’’
Em Pec (Kosovo), o patriarca ortodoxo Pavle recebeu ontem o príncipe Alejando Karageorgevic, herdeiro da coroa iugoslava. Apoiado pelo clero ortodoxo, ele defendeu um governo de união nacional (sem Milosevic) e definiu a monarquia como melhor sistema para pacificar o país.
Em Pristina, o comando das forças de paz (Kfor) deu por concluída a primeira fase do desarmamento do Exército de Libertação de Kosovo.
Duzentos ciganos do ramo romani foram expulsos ontem da cidade kosovar de Obilic, no nordeste de Pristina, eles disseram que deixaram a região porque receberam ameaças dos albaneses. Num comboio de carroças puxadas por cavalos eles seguiram para Polje, no sul da província.
Os ciganos são acusados pelos albaneses étnicos de Kosovo de terem colaborado com os sérvios durante o conflito. Os sérvios, segundo antropólogos locais, sempre toleravam os ciganos que tradicionalmente desempenhavam serviços secundários e viveram afastados em áreas rurais nos subúrbios das cidades da província de Kosovo.
Trezentos ciganos já estão em Polje. Outros 600 das cidades de Kosovska Mitrovica, Vucitrn e Obilic se juntaram num acampamento em Leposavic, no norte de Kosovo, sob supervisão da Cruz Vermelha da Iugoslávia. Alguns deles que tentaram entrar na Sérvia foram enviados de volta.Presidente iugoslavo lança programa de reconstrução. Ainda a personalidade mais popular no país, Milosevic vê a oposição crescer
France PresseLimpeza étnicaOs ciganos são acusados de colaborar com os sérvios e agora são expulsos pelos albaneses kosovares. Muitos deles também foram impedidos de entrar na Sérvia e agora formam acampamentos assistidos pela Cruz Vermelha

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