Os Curdos. Entre a Turquia e a Itália a situação está pegando fogo, e o incêndio ameaça toda a Europa. O litígio Roma/Ancara foi provocado pela prisão na Itália do líder da revolta curda na Turquia, Abdullah Ocalan. O primeiro ministro turco, Mesut Yilmaz, pediu imediatamente a Roma sua extradição para a Turquia. O presidente do Conselho Italiano, Massimo D’Alema, rejeitou o pedido turco, pois a Constituição italiana proíbe extraditar um suspeito para um país onde ele possa correr risco de vida. É o caso da Turquia, que não aboliu a pena capital. E o chefe dos curdos foi, de fato, condenado à morte.
O conflito entre essas duas potências mediterrâneas em torno de Ocalan nos faz lembrar do drama da população curda. Os curdos, moradores das montanhas do Oriente Médio, são muito numerosos: cerca de 30 milhões. Depois da guerra de 1914, em 1920, um tratado, assinado em Sevres, concedeu aos curdos o direito de constituir um Estado. Ora, esse Estado curdo ainda não se formou, de maneira que hoje os curdos estão disseminados entre cinco Estados: a ex-URSS, a Síria, o Irã, o Iraque e a Turquia.
A minoria curda mais densa e mais agressiva encontra-se na Turquia. Ali vivem doze milhões de almas aos quais são negados todos os direitos nacionais pelos poderes de Ancara. Resultado: um dos grupos curdos independentistas, o PKK (partido dos trabalhadores do Curdistão) pegou nas armas e trava contra os soldados turcos uma guerra impiedosa.
O chefe do PKK é justamente esse Abdullah Ocalan que a Itália se recusa a entregar às autoridades otomanas. O homem é reverenciado pelas populações curdas da Turquia. A extensão dessa idolatria é tal que neste momento, em todas as cidades européias, a minoria curda se insurge com incrível violência a fim de que Ocalan não seja enviado para a Turquia. Em Roma mesmo, um jovem curdo foi salvo ‘‘in extremis’’ antes de imolar-se pelo fogo. Em Moscou, dois Curdos se suicidaram.
Ocalan tem um apelido : ‘‘o Jesus dos Curdos’’. Na verdade, esse Jesus não é um ‘‘cordeiro de Deus’’: à brutalidade dos soldados turcos, retruca pelo sangue e seus ‘‘homens da resistência’’ praticam o terror em grande escala, não temendo executar os renegados.
A Turquia está furiosa com a Itália por sua recusa de extraditar o chefe do PKK. Aliás, Roma não sentiu nenhum constrangimento para explicar que o governo do presidente turco Demirel não tem nenhuma chance de resolver a questão curda enquanto Ancara persistir em pretender que as revoltas são culpa de um ‘‘bando de terroristas disfarçados de políticos’’. Esse caso não melhora as relações da Turquia com o resto da Europa.

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