Abaí - A tensão está cada vez mais forte em uma colônia de produtores rurais chamada Colônia Santa Teresa, distrito de Abaí, em Caazapá (Sul do Paraguai). Na terça-feira passada, o juiz Oscar Rivas assinou uma ordem judicial pedindo a reintegração de posse e autorizando que 80 famílias de campesinos (os sem-terra paraguaios) entrassem no local.

Segundo o radialista paraguaio Carlos Amarilla, que trabalha na região, os campesinos são pessoas que possuíam terras na própria Colônia Santa Teresa. "Alguns venderam e voltaram a invadir a mesma terra para comercializá-la novamente. Eles querem adquirir terras mecanizáveis com esse dinheiro", afirmou. Ele ressaltou que a situação está crítica.

A Colônia Santa Teresa possui 150 famílias paraguaias e brasileiras e a área possui 2,8 mil hectares. Os primeiros agricultores chegaram à Colônia Santa Tereza há 22 anos. Segundo o radialista Carlos Amarilla, grande parte pagou 25% da propriedade e outra parte já quitou totalmente o valor do terreno, mas ainda não conseguiram os títulos de propriedade e por este motivo não possuem qualquer segurança jurídica.

O documento autorizando a entrada dos 80 campesinos foi entregue aos produtores rurais de Santa Teresa pelo oficial de justiça Omar Segovia, que foi ao local acompanhado pelo presidente do Instituto Nacional de Desarrollo Rural y de la Tierra (Indert), Justo Cárdenas, além de gerentes, diretores, técnicos e dirigentes do Movimiento Campesino Paraguayo (MCP).

As famílias de campesinos chegaram acompanhadas por um numeroso contingente policial, apoiadas inclusive por um helicóptero. Em entrevista à FOLHA, o agricultor Valcir Pelizza destacou que a entrada foi tensa. "Eles vieram acompanhados por 'cascos azuis'. Estão argumentando que se recuperarem os terrenos, as invasões em todo o País acabarão. Outros dizem que se a ação continuar, vai agravar a situação", afirmou.

Os moradores da estância chegaram a formar um piquete para protestar contra o procedimento e impedir a passagem dos campesinos. Foi criada uma barreira com troncos, pneus e vegetação local para impedir a passagem dos campesinos, mas não foi bem sucedida.

Apoiados pelos policiais, os campesinos logo entraram pelas beiradas da barricada e os caminhões do Indert e as motocicletas dos campesinos descarregaram o material para a construção das habitações precárias feitas com lonas. Em instantes mais de 100 barracos foram construídos sobre uma plantação de soja que havia no local.

Os agricultores reclamam que por serem pequenos produtores dependem da área para sobreviver e que as famílias que entraram com a autorização judicial estão destruindo tudo. Segundo Amarilla, o mesmo grupo de campesinos invadiu a propriedade de uma empresa agropecuária há um ano e foi expulso de lá. "Resolveram acampar em frente ao Indert, em Assunção (capital paraguaia), onde ficaram por quatro meses. Aí o presidente do Indert recebeu a ordem do presidente da República Horacio Cartes para tirá-los dali de qualquer jeito", afirmou.

Pelizza relatou que a área já seria destinada para reforma agrária, mas com o passar do tempo alguns agricultores compraram os terrenos. Porém, não conseguiram obter a escritura definitiva e agora o Indert quer recuperar essas áreas. "Não são apenas os brasileiros que serão afetados. Paraguaios também estão perdendo os lotes deles", afirmou Pelizza.

Durante a ocupação, Cárdenas afirmou que a recuperação de terras é "uma decisão legal, coordenada e firme do Governo Nacional, já que se trata do ordenamento patrimonial dos bens do Estado, a favor dos compatriotas carentes de terras, para viver e trabalhar dignamente".

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