O anúncio da primeira clonagem de um embrião humano com fins terapêuticos coloca temores de ordem ética, mas suscita também ceticismo entre os cientistas, que relativizam sua importância. Trata-se ''mais de uma provocação do que informação científica'', disse à AFP o professor Jean-Paul Renard, especialista em clonagem animal do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra).
A empresa americana Advanced Cell Technology (ACT) clonou embriões com o objetivo de obter células-tronco que permitam algum dia reparar tecidos humanos sem ser rechaçados como órgãos estranhos pelo receptor. Ao declarar esse objetivo, a empresa se afasta dos cientistas que anunciaram seu projeto de fazer nascer bebês clonados, como o italiano Severino Antinori e o norte-americano Panayotis Zavos.
Mas a obtenção pela ACT dessas preciosas células-tronco não foi frutífera, segundo resultados ''preliminares'', que parecem ser mais um ''fracasso''. ''Ainda se está muito longe de sua utilização terapêutica'', comentou Renard.
O embrião humano só se desenvolveu durante algumas horas ''até o estado de seis células'', e depois deixou de se dividir, assinalam os cientistas da ACT no Journal of Regenerative Medicine, editado na Internet pelo professor William Haseltine, diretor da empresa de biotecnologia Human Genome Sciences.
Ao intitular ''O primeiro clone humano'' em sua primeira página, a revista Scientific American deu o tom. Começou a competição pela obtenção de células-tronco embrionárias capazes de serem cultivadas e utilizadas para reparar ou regenerar qualquer tipo de tecido do corpo humano.
''Seis células: um resultado insuficiente para reproduzir e cultivar em massa linhas celulares de qualidade'', comenta o professor Renard.
Sua opinião é compartilhada pelo médica Lorraine Young, especialista em fecundação in vitro da Universidade de Nottingham. Outros, como o biólogo americano Glenn McGee, falam de ''operação publicitária''.
''Para poder produzir e cultivar linhas dessas preciosas células, é necessário pelo menos chegar ao estado de desenvolvimento do embrião chamado blastócito'', estimam os especialistas.
''Sabe-se que o embrião (clonado) de aparência normal tem pouquíssimas possibilidades, cerca de 5%, de se desenvolver totalmente'', indica Renard. ''Desses 5%, metade apresenta rapidamente anomalias fisiológicas: imunitárias, cardiopatias, anomalias vasculares'', e ''não se exclui que minidisfunções se manifestem também em células diferenciadas procedentes dessas clonagens'', acrescentou. E, ''de qualquer maneira, se se obtiverem linhas celulares, é necessário verificar que elas guardem todas suas potencialidades de diferenciação'', explicou.
Além do mais, uma vez obtidas essas células, serão necessários entre dez e 20 anos de trabalho para obter os diferentes tipos de células utilizáveis no tratamento de enfermidades tão diversas como os transtornos cardíacos, diabetes ou câncer, acrescenta a médica Young.

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