Paulo Sotero
Agência Estado
De Washington
Uma manobra de obstrução parlamentar parecia ser ontem à tarde o único recurso ao alcance do presidente Bill Clinton (foto) para evitar uma das maiores derrotas da política externa de seu governo: a rejeição pelo Senado dos Estados Unidos do Tratado Abrangente de Banimentos dos Testes Nucleares (CTBT, na sigla em inglês), se a Casa Branca e os líderes da maioria republicana não chegarem a um acordo para adiar a votação, que pode acontecer hoje ou amanhã.
‘‘Estamos perto de dar um sinal ao resto do mundo de que não somos sérios sobre o controle da proliferação das armas nucleares’’, disse o secretário de Defesa, William Cohen, no domingo. ‘‘O risco é alto’’, advertiu Clinton, no sábado, em seu discurso semanal ao país, por rádio. ‘‘A rejeição desse tratado seria uma perigosa meia-volta que nos distanciaria de nosso papel de líder contra a proliferação nuclear.’’
Um voto negativo do Senado, onde são necessários 67 votos, ou dois terços, para a ratificação, marcaria a primeira vez que os EUA rejeitaram um tratado internacional desde Tratado de Versalhes, que criou a Liga das Nações depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Na semana passada, Cohen e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, General Henry H. Shelton, lideraram a ofensiva pela ratificação do tratado de 1996. O governo dos EUA, que conduziu as negociações, foi o primeiro a assinar o CTBT. Mais de 150 países já firmaram o tratado e 48 o ratificaram, entre eles o Brasil. Os EUA e a Rússia, que possuem a maior parte das 35 mil armas nucleares existentes (ou um pouco mais da metade do arsenal mundial de dez anos atrás) suspenderam unilateralmente seus testes nucleares no início dos anos 90. A tese do governo Clinton é que o CTBT, que só entrará em vigor depois de ser ratificado pelos EUA, é uma importante ferramenta para convencer países como a China, a Índia e o Pasquitão a desistir da corrida nuclear em que estão hoje engajados e aceitar o princípio da não-proliferação.
Mas os argumentos da administração não convenceram os republicanos.
Alguns líderes conservadores, como John Warner, de Virginia, um especialista em segurança, sustentam que o cumprimento do tratado é de difícil verificação, apesar da instalação de uma rede mundial de mais de 130 centros sismográficos prevista pelo CTBT. Outros consideram o CTBT simplesmente um mau tratado. É o caso do senador Richard Luggar, de Indiana, que é considerado na voz da razão em política externa na bancada conservadora. Com a ratificação fadada à derrota certa no Senado, na sexta-feira passada Clinton pediu o adiamento da votação.
Mas, vendo no episódio uma oportunidade para derrotar e humilhar Clinton politicamente, o que tentam fazer desde o fracassado processo de impeachment do presidente, os líderes republicanos condicionaram o adiamento da votação a um pedido por escrito, no qual Clinton se comprometa a não apresentar o CTBT para ratificação nos quinze meses que lhe restam na Casa Branca.
Alguns senadores republicanos, como John McCaine, de Arizona, que é pré-candidato à presidência, se pronunciaram em favor de uma saída negociada, que adie a votação. Mas o ânimo em Washington não está para soluções de compromisso e o suspense continua. Mesmo que o bom senso prevaleça no final e a votação seja adiada, os EUA saem do episódio com a credibilidade de sua política antiproliferação nuclear fortemente abalada pela incapacidade política de seus governantes de se entenderem sobre um tratado cuja negociação iniciaram e que instaram outros países a adotar.

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