Clinton leva solidariedade à Jordânia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Paulo Sotero 
A presença do presidente Bill Clinton e três de seus quatro antecessores vivos no funeral do rei Hussein da Jordânia marcou a solidariedade e a disposição de apoio dos Estados Unidos a um pequeno país que tem apenas 4 milhões de habitantes, mas é chave para o projeto americano de consolidação da paz no Oriente Médio.
Ele era um homem magnífico e, como muitos, eu gostava dele e o admirava muito, disse Clinton sobre o monarca hachemita, no domingo, antes de embarcar para Amã acompanhado pelos ex-presidentes George Bush, Jimmy Carter e Gerald Ford e dezenas de dignitários americanos que tiveram contato estreito com Hussein nas mais de quatro décadas em que ele governou a Jordânia.
Antes de Clinton partir, a Casa Branca informou que estava buscando meios de sinalizar seu apoio ao sucessor de Hussein, seu filho Abdulah.
Uma das possibilidades é convencer o Congresso, onde Hussein tinha muitos amigos, a aumentar e acelarar o desembolso da ajuda de US$ 100 milhões de assistência econômica para a Jordânia no orçamento atual.
Incentivado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, o Fundo Monetário Internacional enviou um negociador na semana passada a Amã para completar as conversações sobre um programa econômico que poderá trazer mais dinheiro para o país, cuja economia está estagnada há dois anos.
O desaparecimento de Hussein ocorre num momento particularmente delicado e frágil do processo de paz iniciado há mais de vinte anos com a histórica visita do ex-presidente Anuar Sadat, do Egito, a Jerusalém e ampliado com o acordo de paz firmado entre israelenses e palestinos nos jardins da Casa Branca, em 1993.
Um mestre na arte da sobrevivência política numa das regiões mais explosivas do planeta, Hussein conquistou a admiração e a amizade de sucessivos presidentes e da maioria dos políticos americanos com um misto de coragem, moderação e ousadia que, em pelo menos dois momentos cruciais, o colocou contra os interesses de Washinhton.
Em 1967, o medo de uma rebelião popular dos palestinos, que constituem a maioria da população jordaniana, levou o monarca a lançar suas tropas contra Israel, junto com o Egito e a Síria. A aventura custou-lhe o controle do setor árabe de Jerusalém e da Cisjordânia.
Em 1991, ele novamente desafiou os EUA ao dar apoio tácito ao Iraque na Guerra do Golfo. Quatro anos mais tarde, já transformado em pilar do processo de paz na região, o rei rompeu com o presidente do Iraque, Saddam Hussein.
As garantias que o rei Abdullah deu à secretária de Estado, Madeleine Albright, na semana passada, de que carregará a bandeira de pacificador de seu pai, e sua decisão de nomear príncipe herdeiro seu meio-irmão, Hamzeh, de 18 anos, tranquilizaram os estrategistas em Washington e especialistas do meio acadêmico.
Hamzeh é o filho mais velho da rainha Noor, uma americana de origem árabe que se casou com Hussein em 1978 e foi a última de suas quatro esposas.
O argumento segundo o qual com a saída de Hussein da cena o Oriente Médio perde seu último grande estadista, depois do ex-presidente egípcio Anuar Sadat e do ex-primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, um diplomata americano respondeu lembrando que o processo de paz não foi estancado pelos assassinatos dos dois líderes.
O simples fato de Hussein ter morrido de causas naturais e não pelas mãos de seus inimigos, como costuma acontecer na região, pode ser visto com um sinal de esperança.
Acho que os ingredientes existem para o sucesso de Abdullah, disse Yehuda Luckas, professor da Universidade de George Mason, em Virginia. Ele tem o apoio dos militares e da minoria de beduínos. Sua mulher é palestina. Ele não fez nenhuma declaração que tenha contrariado seus vizinhos e os israelenses acham que podem trabalhar com ele.
David Schenker, do Instituto de Políticas para o Oriente Próximo, em Washington, disse que o novo soberano manterá as prioridades políticas de seu pai. Mas previu, também, que ele será testado logo por seus dois vizinhos árabes mais complicados, os presidentes Hafez Assad, da Síria, e Hussein, do Iraque, sem contar as dificuldades que o controvertido primeiro-ministro israelense poderá criar com sua política de esvaziamento dos acordos de paz.


