Tenso e contraído, o presidente norte-americano Bill Clinton passou ontem um dos momentos mais difíceis de sua carreira política: teve que suportar uma longa cerimônia militar em sua honra na grande praça Tiananmen, conhecida como Praça da Paz Celestial, em Pequim, palco do massacre de estudantes de 1989. Há pouco mais de nove anos, nessa imensa esplanada em pleno centro da capital chinesa, o Exército Popular de Libertação massacrava centenas de pessoas que se manifestavam a favor da democracia.
Clinton se sentia visivelmente incomodado, o que é compreensível, tendo em conta que durante a campanha presidencial de 1992 acusou o adversário da época, o republicano George Bush, de ‘‘mimar os ditadores’’ chineses e de ser muito brando com Pequim.
Preocupada com as críticas contra Clinton nos Estados Unidos, a Casa Branca manteve, até o final, uma aura de incerteza, afirmando que a cerimônia oficial de boas-vindas não aconteceria na praça Tiananmen propriamente dita, mas ‘‘diante do Palácio do Povo’’, adjacente à praça.
No entanto, da tribuna situada em frente à praça onde tomou lugar junto ao presidente chinês Jiang Zemin para ouvir os hinos nacionais dos dois países, Clinton teve tempo para recordar os acontecimentos de 4 de junho de 1989, cujas imagens deram a volta ao mundo.
O presidente norte-americano permaneceu de pé durante vários minutos, com o olhar fixo no fundo da praça, de onde a polícia havia retirado todos os pequineses que habitualmente frequentam o local.
Acompanhado de Jiang, Clinton passou em revista a tropa, encaminhando-se, depois, para a tribuna. Sua expressão séria e o rosto crispado contrastavam com a imagem habitual sorridente e relaxada.
Debate público O encontro foi finalizado com um debate público dos dois presidentes sobre a liberdade, que pela primeira vez foi transmitido ao vivo pela televisão chinesa. Mais que os acordos alcançados, este encontro sino-americano passará à história pela longa discussão, muito amável na forma, entre Clinton e Jiang sobre as manifestações em favor da democracia em 1989 e seus conceitos opostos em matéria de direitos humanos.
Porém o mais surpreendente foi que a televisão chinesa tenha transmitido ao vivo o debate, centralizado na repressão do Governo chinês, que custou a vida de centenas de pessoas. Toda a população chinesa pode ouvir o presidente dos EUA defender a liberdade de expressão, associação e religião e afirmar, em relação ao massacre da Paz Celestial, que ‘‘o recurso à força e as trágicas perdas humanas foram um erro’’.
O Governo norte-americano foi o primeiro surpreendido pela transmissão televisiva da entrevista. ‘‘Apreciamos o fato de que o povo chinês tenha podido ser testemunha e esperamos que os pontos de vista do presidente produzam um impacto’’, declarou o porta-voz de Clinton, Michael McCurry, muito satisfeito. Clinton fez questão de lembrar que embora considere indispensável cooperar com a China, os Estados Unidos não esqueceram os acontecimentos da Praça da Paz Celestial.

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