Apenas algumas horas depois de os advogados da Casa Branca terem concluído o primeiro dia de sua defesa no julgamento de impeachment, no Senado, o presidente Bill Clinton entrou sorridente terça-feira, às 21h05 (0h05 de ontem, em Brasília), no plenário da Câmara dos Representantes - a mesma que há um mês votou a favor de sua destituição do poder, por crimes de perjúrio e obstrução da Justiça - e declarou solenemente perante uma sessão conjunta das duas Casas do Congresso que a União norte-americana está ‘‘forte’’.
Aplaudido entusiasticamente pelos democratas e discretamente pelos republicanos, Clinton começou o discurso homenageando as viúvas dos agentes de segurança do Capitólio assassinados por um franco-atirador no ano passado.
Embora não haja discussão de que, no limiar do sétimo ano da administração Clinton, os Estados Unidos vivam um momento de esplendor econômico, há algo de incongruente e surrealista na encenação anual do grande rito institucional da democracia norte-americana, a única ocasião em que os Três Poderes da República se encontram.
Por melhor que seja o atual Estado da União americana, a recepção mais protocolar e comedida reservada a Clinton, em comparação com os anos anteriores, traiu o desconforto provocado entre muitos parlamentares pelo comparecimento ao Congresso controlado por um partido de oposição que considera o presidente um homem que desonrou o posto que ocupa, cometeu crimes e se desqualificou para continuar na Casa Branca.
Alguns deputados e senadores do próprio Partido Democrata sugeriram o adiamento do discurso. Mas Clinton não quis.
‘‘Apresento-me para reportar que a América criou a mais longa expansão econômica de sua história em tempos de paz, com a criação de 18 milhões de novos empregos, salários que aumentam a uma taxa duas vezes maior do que a inflação, a maior porcentagem de americanos que moram em casas próprias, o menor número de pessoas dependentes da assistência pública em 30 anos e a menor taxa de desemprego desde 1957’’, afirmou Clinton.
‘‘Pela primeira vez em três décadas, o orçamento federal está equilibrado. De um déficit de US$ 290 milhões em 1992, fechamos o ano passado com um saldo de US$ 70 bilhões e estamos em posição de ter superávits orçamentários pelos próximos 25 anos.’’
Enfatizando as boas notícias, Clinton lembrou que hoje a criminalidade é a mais baixa nos EUA e o ambiente o mais limpo em 25 anos. ‘‘Graças à liderança pioneira do vice-presidente Albert Gore, temos hoje um governo preparado para a era da informação’’, continuou Clinton, valorizando o desempenho do homem de cuja eleição para a Casa Branca no ano 2000 ele depende de forma crucial para deixar um legado e não passar à história como o presidente que se autodestruiu por causa de uma aventura sexual com uma jovem estagiária.
‘‘Mais uma vez, o nosso governo é um instrumento progressista para o bem comum, enraizado em nossos mais antigos valores: oportunidade, responsabilidade, comunidade. Um governo moderno, devotado à responsabilidade fiscal e determinado a dar às pessoas os instrumentos de que elas precisam para tirar o máximo proveito de suas próprias vidas, um governo do século 21 para uma América do século 21.’’

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