icon-aspas Vamos reconstruir Notre-Dame porque é isso que os franceses esperam, é isso que a nossa história merece, porque é o nosso destino
Emmanuel Macron, presidente da França -

As chamas de um incêndio de grandes proporções atingiram um dos principais símbolos da França: a Catedral Notre-Dame de Paris. Durante horas no início da noite de segunda-feira (14) francesa, 856 anos de história ardiam sob os olhares perplexos dos franceses. Diante do que parecia ser o inevitável fim do mais conhecido templo católico do país, a população se aglomerou nas pontes e praças da cidade entoando canções religiosas, buscando na fé uma possível salvação. O incêndio dizimou o telhado da construção, fez sucumbir o pináculo central e ameaçou a fachada com as duas torres. Passadas praticamente cinco horas, aproximadamente 500 bombeiros conseguiram dominar o avanço do fogo e anunciaram que a estrutura estava salva e preservada em sua totalidade. O presidente francês, Emmanuel Macron, em um pronunciamento emocionado, lamentou o ocorrido, enalteceu a importância do marco da cidade e declarou as primeiras medidas. “Vamos apelar para os maiores talentos e vamos reconstruir Notre-Dame porque é isso que os franceses esperam, é isso que a nossa história merece, porque é o nosso destino”, disse o chefe de estado, que anunciou um chamamento nacional para arrecadar fundos para realizar o trabalho. Macron, inclusive, entrou na catedral no início da madrugada para conferir os estragos.

Aproximadamente 500 bombeiros trabalharam para dominar o avanço do fogo: estrutura foi preservada em sua totalidade
Aproximadamente 500 bombeiros trabalharam para dominar o avanço do fogo: estrutura foi preservada em sua totalidade | Foto: Eric Fefeberg/AFP

O alarme soou na catedral por volta das 18h50 locais (13h50 de Brasília) e o prédio foi esvaziado. Em pouco tempo, imensas chamas consumiam parte do teto do monumento gótico da Idade Média, lançando uma fumaça espessa e amarelada que se espalhava por vários quilômetros. Uma obra de restauro e manutenção do telhado havia sido iniciada no fim do ano passado. Segundo informações de técnicos da igreja, as estruturas destruídas datavam do século 19 de um lado e do 13 do outro. A gravidade do incêndio foi tamanha que os bombeiros chegaram a anunciar que nada restaria do local mais visitado na Europa – 13 milhões de visitantes ao ano. “Não temos certeza de poder impedir a propagação no campanário norte. Se ele desmoronar, você pode imaginar o tamanho dos danos”, afirmou o comandante da brigada de incêndio dos Bombeiros de Paris, Jean-Claude Gallet. Enquanto as plataformas despejavam centenas de milhares litros de água no telhado, uma operação de voluntários buscava salvar o que havia de mais precioso no interior. “Vimos uma corrente de solidariedade, especialmente para a preservação das obras em conjunto com o reitor de Notre-Dame, o Ministério da Cultura, a cidade de Paris. Buscamos os meios para recuperar as obras e objetos sacros”, contou Anne Hidalgo, prefeita da capital francesa.

Poucas horas após o início do incêndio que assolou a Notre-Dame de Paris, o escritório do procurador de Paris afirmou que já havia iniciado uma investigação em conjunto com a Polícia para ir atrás das causas que preliminarmente foram consideradas como involuntárias. Ainda durante a noite, a Fundação do Patrimônio Francês já havia lançado um chamamento público para arrecadar fundos para a reconstrução. Outras correntes em sites europeus já registravam a arrecadação de mais de 6 mil euros. A construção da Notre-Dame na Île de la Cité, uma pequena ilha no centro de Paris, rodeada pelas águas do rio Sena, levou 180 anos: desde 1163, quando começou a construção no local de uma catedral romana, até 1345. Em meados do século 12, essa catedral romana era muito pequena para a população de Paris, cujo crescimento havia disparado. Surgiu então o projeto de construir uma imensa catedral, de 135 metros de largura e 40 metros de altura, uma testemunha da prosperidade relativa do momento, quando a fome e as epidemias diminuíram. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) afirmou se colocar ao “lado da França para salvaguardar e reabilitar este patrimônio inestimável”, conforme disse o diretor-geral Audrey Azoulay, em seu perfil no Twitter.

Entre os franceses, a cena parecia ser inimaginável. “Paris está desfigurada. A cidade nunca voltará a ser como antes”, lamentou Philippe, francês de 30 anos que estava no entorno e foi ouvido pela Agência France Presse. O representante comercial londrinense Rafael Fernandes está de férias na Europa e não chegou a visitar a igreja. Ele acompanhou durante horas nas ruas a reação das pessoas e a movimentação dos bombeiros. “Eu percebo que as pessoas estão muito perplexas, tristes, emotivas e chegam a chorar. É um monumento da fé cristã em risco. O clima é de muita tristeza”, narrou Fernandes. Já o jornalista paranaense Leandro Donatti mora há quatro anos em Paris e assistiu ao incêndio de uma região de sua casa, numa distância de cerca de 250 metros da catedral. “As pessoas estavam se aglomerando nas pontes para assistir ao trabalho dos bombeiros. Estão em silêncio, muito comovidas”, afirmou. Uma parte da Île de la Cité, no coração da capital, precisou ser evacuada por questões de segurança. Pelo Twitter, a polícia de Paris pediu para os franceses evitarem a região e cederem passagem aos veículos de resgate.

As imagens da igreja sendo consumida pelo fogo tomaram conta dos noticiários em todo o mundo e os líderes prestaram solidariedade aos franceses. O Vaticano expressou logo sua consternação. “A Santa Sé acolheu com choque e tristeza a notícia do terrível incêndio que devastou a Catedral de Notre-Dame, símbolo da cristandade na França e no mundo”, afirmou o diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti. O presidente Jair Bolsonaro também se pronunciou através das redes sociais. “Em nome dos brasileiros, manifesto profundo pesar pelo terrível incêndio que assola um dos maiores símbolos da cultura e da espiritualidade cristã e ocidental. Neste momento sombrio, as nossas orações estão com o povo francês”, escreveu. A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que a catedral de Notre-Dame é um “símbolo da França” e da “cultura europeia”. A primeira-ministra britânica, Theresa May, disse que seus “pensamentos estão com a população francesa e com os serviços de emergências” da cidade. Donald Trump, presidente dos EUA, classificou o incidente como “horrível” e sugeriu que as autoridades usassem aviões-tanque para combater as chamas. A Defesa Civil de Paris alertou, contudo, que esse tipo de procedimento “poderia provocar o colapso de toda a estrutura”.

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Emmanuel Macron, presidente da França -

Ao longo dos séculos, a Catedral de Notre-Dame de Paris foi cenário para eventos que marcam a história mundial e foi imortalizada na obra do escritor Victor Hugo com seu personagem Quasimodo, de “Notre-Dame de Paris” (1831). Durante a Revolução Francesa, a suntuosa igreja sofreu vários atos de vandalismo, que resultaram na destruição da torre central, além de roubo de obras de arte e de outros tesouros e em danos nas grandes estátuas do pórtico. A igreja chegou a ser transformada em armazém. Também foi palco da coroação de Napoleão como imperador e escapou ilesa pelas duas guerras mundiais, sendo que seus sinos soaram para anunciar a libertação da capital francesa do domínio nazista, em 25 de agosto de 1944. Ao longo dos anos, são realizadas 2.000 missas, entre elas a do início do processo de beatificação de Joana d'Arc. Entre as relíquias sacras que são abrigadas na catedral, estão fragmentos da coroa de espinhos com a qual Cristo foi coroado pelos soldados romanos e um pedaço da própria cruz. O reitor da catedral já confirmou que todas as peças estão a salvo e que o Sacrário também não foi afetado. Entre as obras de arte, está a Pietà dans le Choeur, feita antes da obra consagrada de Michelangelo, e os vitrais coloridos, como as Rosas Sul e Norte, que representam em riqueza de detalhes os 12 apóstolos, além de mártires e santos geralmente venerados pelos franceses, como São Mateus. Séculos de história e cultura que levarão anos para serem reerguidos. (Com Agências)

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