A equipe de cientistas de Edimburgo que clonou, em julho de 1996, a ovelha Dolly, conseguiu pela primeira vez inserir um gene terapêutico, exatamente no local desejado, o patrimônio genético de duas ovelhas, Cupido e Diana.
Os resultados destes trabalhos, os primeiros obtidos em mamíferos, foram publicados na edição de ontem da revista científica britânica Nature.
Segundo o professor Alexander King, autor principal da pesquisa, a extensão desta técnica ao gado poderá ter inúmeras consequências benéficas para a medicina humana.
Graças a ela, os médicos poderão suprimir os antígenos encarregados de rejeitar um órgão estranho ao realizar um xenotransplante (órgão de um animal no homem), desativar os genes responsáveis por certas enfermidades e precisar a localização de genes destinados a produzir, nos animais, proteínas necessárias para as terapias humanas.
Por causa dos cruzamentos realizados pelo homem há milhares de anos, as características físicas e genéticas das ovelhas evoluíram consideravelmente: estes animais converteram-se em verdadeiras ‘‘fábricas de proteínas com patas’’ capazes de sobreviver nos meios hostis produzindo, ao mesmo tempo, leite, carne e lã em abundância.
No entanto, apesar dessas modificações sucessivas sofridas pela espécie, os cruzamentos eletivos têm seus limites. Para tentar melhorar a seleção, os cientistas recorrem há vários anos à manipulação genética. Relativamente fácil de aplicar, esta técnica requer simplesmente uma injeção de DNA desprovido de suas proteínas no núcleo de um óvulo fertilizado.
Deste modo, os cientistas conseguiram inserir nos óvulos proteínas humanas, como a alpha-1-antitripsina (enzima alterada responsável pelo enfisema hereditário) e criar ovelhas que produzam essa proteína em seu leite.
Mas esta técnica não é perfeita, principalmente porque o DNA injetado se integra de maneira casual no genoma do animal. Em consequência, o gene injetado nem sempre atua no tecido escolhido.
Além disso, os próprios genes do animal (chamados endógenos) não podem ser modificados de modo duradouro, o que significa que a modificação, mesmo que tenha sucesso, não é transmissível aos descendentes da ovelha transgênica.
A clonagem realizada pela PPL Therapeutics, em Roslin (perto de Edimburgo), consiste em inserir um segmento de DNA numa região precisa do cromossoma de uma célula adulta, e depois fundi-la com um óvulo fertilizado cujo núcleo foi previamente retirado.
Segundo o professor King, as ovelhas Cupido e Diana, obtidas a partir desses óvulos manipulados são hoje portadoras das modificações esperadas e estão em bom estado de saúde.
Para realizar este trabalho, os cientistas inseriram no óvulo o gene produtor da proteína alpha-1-antitripsina, cuja ausência no organismo provoca uma doença pulmonar grave, o enfisema hereditário.
Num editorial que acompanha o artigo, os biólogos Milind Suraokar e Allan Bradley, do Baylor College of Medicine de Houston, estimam que graças ao trabalho dos cientistas escoceses ‘‘nos encontramos agora no alvorecer de uma nova era da genética dos mamíferos’’.
Segundo Suraokar e Bradley, comercialmente a técnica poderia ser usada na pecuária por exemplo para suprimir genes indesejáveis entre os animais da criação.

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