GUERRA IDEOLÓGICA -

Cientista belga que defende medidas de restrição é jurado de morte e vive em esconderijo


ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

 

O virologista Van Ranst virou alvo de um ex-soldado depois que defendeu restrições para conter o contágio de coronavírus
O virologista Van Ranst virou alvo de um ex-soldado depois que defendeu restrições para conter o contágio de coronavírus | iStock
 



BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A guerra ideológica entre céticos e adeptos da ciência nesta pandemia ganhou contornos muito concretos na Bélgica: uma caçada policial que já dura 21 dias e mobiliza cerca de 350 policiais e soldados, cães de busca, helicópteros e ao menos 50 caminhões militares.


Eles vasculham o nordeste de Flandres (região de fala flamenga, na metade norte do país) à procura do instrutor militar de tiro Jürgen Conings, 46, que fugiu com "um arsenal e munição suficiente para uma pequena guerra", após ameaçar de morte um dos principais --e o mais pop-- virologistas do país, Marc van Ranst.


Especialista em "camuflagem e pontaria", o ex-soldado é descrito pelo governo como "difícil de encontrar e incrivelmente perigoso", e um mandado internacional de busca foi lançado pela Interpol. Unidades especiais de Luxemburgo, da Alemanha e da Holanda auxiliam nas buscas e patrulham as fronteiras que poderiam ser cruzadas por Conings.


No dia em que desapareceu, o ex-soldado retirou do depósito do quartel um lançador de foguetes, uma submetralhadora P90 --arma leve semiautomática que pode perfurar coletes à prova de balas, segundo o Exército belga-- e uma pistola 5,7 mm e deixou um bilhete: "Não consigo conviver com as mentiras de quem decide como devemos viver. A chamada elite política e agora também os virologistas decidem como você e eu devemos viver. Eles semeiam ódio e frustração, piores do que já eram".


Depois dirigiu até a rua em que Van Ranst mora e montou campana por três horas, esperando que ele chegasse no trabalho. Por sorte, o chefe do departamento de virologia clínica e epidemiológica da Universidade Católica de Leuven havia voltado excepcionalmente mais cedo e já estava em casa com a mulher e o filho de 12 anos.


Desde então, Van Ranst e família estão trancados em um esconderijo vigiado por agentes de segurança. A ameaça é levada tão a sério que o cientista não pode se aproximar das janelas e nem mesmo dar entrevistas por videoconferência, para que não haja imagens que permitam sua localização.


O cientista, que completa 56 anos no próximo dia 20, virou um alvo visível na Bélgica por suas aparições frequentes em programas de TV e rádio e em coletivas onde foram anunciadas restrições para conter o coronavírus. Sátiras de suas entrevistas foram vistas mais de 1,5 milhão de vezes no YouTube e ele chegou a apresentar programas pops de rádio e de TV.


Além da visibilidade, ele adotou desde o começo uma atitude de "combate às duas doenças da Bélgica: o coronavírus e a extrema direita flamenga"..A ameaça de Conings é a mais séria e mais recente, mas houve várias outras no ano passado, e Van Ranst chegou a ser processado por nacionalistas por "causar danos econômicos".


Dias depois de ter sido colocado sob proteção policial, o virologista chegou a entrar na toca dos leões: ingressou em um grupo de aplicativo de mensagens chamado "Als 1 man achter Jürgen" ("como um só homem por trás de Jürgen", em apoio ao ex-soldado) e provocou seus cerca de mil participantes.


"Pensei em vir ver que criatividade borbulha por aqui. Devo dizer que estou desapontado", escreveu, acrescentando depois: "Muitos erros ortográficos !!! (...) Sem padrões, mas, novamente, o que poderíamos esperar de um grupo de apoiadores de terroristas?".


Ao VRT News, ele disse que talvez não tenha sido a atitude mais sensata, "mas você nem sempre pensa isso logicamente": "Estou muito zangado. Estou preso aqui. Para quem está de fora é muito fácil julgar". Dois dias depois, um segundo militante da extrema direita foi preso em Flandres por ameaças ao virologista.


O atirador fugitivo já fazia parte da lista antiterrorismo da polícia, como "extremista potencialmente violento, com visões extremistas, que tem a intenção de usar a violência, mas ainda não tomou medidas concretas para fazê-lo".


Ele era filiado ao partido de ultradireita Vlaams Belang, criticado por criar animosidade contra os virologistas por causa das medidas de restrição ao contágio do coronavírus, vistas como violação de suas liberdades.


O Vlaams Belang disse não ter ligação com as ações nem responsabilidade por elas, mas endossou seu "estado de espírito". "Os atos que Conings quer cometer são repreensíveis, mas a sensação de mal-estar que ele descreve é generalizada", disse o presidente do partido, Tom van Grieken.


Além do perigo individual que o ex-soldado representa, há preocupação com o crescimento da extrema direita dentro das Forças Armadas, algo documentado também em relatórios recentes na Alemanha e no Reino Unido. Outro problema para o governo belga é a repercussão coletiva: em Flandres, onde 40% da população quer se separar da Bélgica.


Manifestantes flamengos fizeram atos de apoio ao atirador depois que ele começou a ser procurado pela polícia, e um grupo de apoio a Conings atraiu mais de 50 mil membros até ser cancelado pelo Facebook, na semana passada. O Vlaams Belang atacou o bloqueio: "Isso só alimenta a raiva existente".


Na semana passada, as buscas pelo terrorista se concentravam em um parque nacional onde foi encontrado seu carro e as armas mais pesadas e mais perigosas. A Justiça iniciou processo por "tentativa de assassinato terrorista", e a polícia diz que quer capturá-lo vivo, embora não descarte a possiblidade de que ele esteja morto. Em bilhete à namorada antes de desaparecer, afirmou: "Estou me juntando à resistência. Talvez não sobreviva".

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