O presidente da França, Jacques Chirac, está sendo acusado de envolvimento em um caso de corrupção ligado a seu partido, o RPR (Reunião pela República, de centro-direita).
Ele seria o pivô de um escândalo revelado anteontem pelo jornal francês ‘‘Le Monde’’, a partir da transcrição de um depoimento em vídeo feito por Jean-Claude Méry, que é apontado como ‘‘financiador oculto’’ de um esquema ilegal de obtenção de recursos para o RPR.
Méry teria sido o principal articulador de um esquema de financiamento – a partir de ‘‘comissões’’ irregulares pagas por empresas – que teria resultado em até 40 milhões de francos por ano (o equivalente a mais de R$ 10 milhões) para o partido do presidente.
Na gravação, Méry afirma que o esquema vigorou de 1985 até o início dos anos 90, época em que Chirac era prefeito de Paris – o atual presidente administrou a Prefeitura da capital do país entre 1977 e 1995.
De acordo com Méry, Chirac teria presenciado um encontro, segundo ele ocorrido em outubro de 1986, em que o financiador supostamente entregou o equivalente a R$ 1,5 milhão ‘‘em dinheiro líquido’’ a um representante do RPR.
No vídeo, Méry afirma que outros partidos também tiravam proveito do esquema, mas que o principal beneficiário seria o RPR. Méry morreu no ano passado, vítima de complicações em decorrência de câncer.
O depoimento de Méry foi gravado pelo produtor de TV Arnaud Hamelin. De acordo com ele, Méry decidiu deixar registrado o funcionamento do esquema de corrupção com medo de que pudesse lhe ‘‘acontecer alguma coisa’’.
As revelações de Méry provocaram profundo mal-estar no palácio Élysée, sede da presidência francesa.
O governo francês descreveu como ‘‘mentirosas’’ as declarações de Méry. ‘‘Este procedimento de fazer um morto falar permite todas as manipulações’’, disse o governo, em comunicado.

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