A China rompeu ontem os laços militares e outros contatos com os Estados Unidos e exigiu que os responsáveis pelo ataque da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra sua embaixada na Iugoslávia sejam severamente punidos. Estudantes arrastaram um boneco vestido como um soldado norte-americano na frente das embaixadas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha no terceiro dia de protestos.
A polícia permitiu aos manifestantes se reunirem em grupos e dispersou curiosos. Manifestantes exigiam que ‘‘uma dívida de sangue seja paga com sangue’’. Estudantes arrastavam e chutavam um boneco vestindo um uniforme norte-americano e com uma bandeira dos EUA no peito. A China rompeu contatos militares de alto nível com os Estados Unidos nas questões de proliferação de armas, segurança internacional e direitos humanos.
Este é um dos momentos mais complicados nas relações entre Estados Unidos e China em 20 anos. O Ministério de Relações Exteriores da China não informou quando os contatos poderiam ser retomados.
O ministro do Exterior Tang Jiaxuan telefonou para o embaixador norte-americano James Sasser para apresentar as exigências e criticou os ataques como ‘‘uma viciosa invasão da soberania da China’’, informaram a embaixada e a mídia estatal.
Tang exigiu uma desculpa ‘‘aberta e oficial’’ ao governo e povo chinês e aos parentes dos três jornalistas mortos no ataque da sexta-feira em Belgrado. Ele também disse que os Estados Unidos deveriam investigar o ataque, tornarem público os resultados e ‘‘punir severamente os responsáveis’’.
Associated PressVelórioJornalistas choram junto ao caixão com o corpo da colega Shao YunhuanA secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright disse que a Otan daria uma explicação completa à China. Ela acrescentou que as declarações de autoridades chinesas indicavam que os protestos antiamericanos em Pequim contavam com a aprovação do governo. Cercado no complexo da embaixada pelos manifestantes, Sasser recusou-se a se encontrar pessoalmente com Tang no Ministério do Exterior.
Dezenas de milhares de manifestantes, estimulados pelo governo, marcharam em 20 cidades chinesas nos últimos três dias, nos maiores protestos desde as manifestações pró-democracia da Praça da Paz Celestial, em Pequim, há 10 anos.
As emoções dos manifestantes foram inflamadas por reportagens divulgadas pela mídia estatal de que o ataque contra a embaixada chinesa que causou a morte de três jornalistas foi deliberado. O presidente norte-americano Bill Clinton pediu novas desculpas nesta segunda-feira pelo bombardeio, considerando-o ‘‘um trágico engano isolado’’.
A suspensão de contatos com os Estados Unidos representaram um golpe contra a política externa de Clinton. Sua administração repetidamente citou diálogos sobre direitos humanos, controle de armas e outras questões como prova de que sua política em relação à China estava produzindo frutos.
A China suspendeu contatos semelhantes com Washington durante uma confrontação sobre Taiwan em 1995 e 1996 - um dos períodos mais tensos desde o estabelecimento de relações diplomáticas.
A China diminuiu de importância mas não cancelou uma visita na quarta-feira do chanceler alemão, Gerhard Schroeder. O enviado da Rússia na crise da Iugoslávia, Viktor Chernomyrdin, chegou ontem a Pequim a fim de conversar com líderes chineses. Assessores disseram que ele deveria encontrar-se hoje com o presidente chinês Jiang Zemin e o primeiro-ministro Zhu Rongji. Chernomyrdin criticou o bombardeio contra a embaixada, mas insistiu que isso não deveria desnortear os progressos rumo à solução da crise de Kosovo.
A abrupta decisão de enviá-lo a Pequim veio após o presidente Boris Yeltsin conversar por telefone com seu colega chinês Jiang Zemin. ‘‘Os líderes de ambos os Estados discutiram a situação na Iugoslávia em detalhes e sua maior gravidade deve-se à atuação bárbara da Otan, que causou vítimas fatais entre cidadãos chineses que trabalhavam em Belgrado’’, dizia um comunicado do gabinete de Yeltsin.
O Conselho de Segurança da ONU marcou uma reunião para a noite de ontem para considerar o pedido da China para uma forte condenação do bombardeio da Otan contra a embaixada chinesa em Belgrado e uma investigação por parte da ONU.
Manifestações, realizadas principalmente por chineses, também ocorreram em Tóquio, Moscou e Israel. Na capital paquistanesa de Islamabad, a polícia utilizou gás lacrimogêneo e bloqueou ruas para evitar que 200 manifestantes chineses chegassem à Embaixada dos Estados Unidos.
A embaixada da China em Belgrado foi bombardeada porque a Otan utilizou um ‘‘mapa desatualizado’’ da cidade, declarou ontem em Washington o secretário americano da Defesa, William Cohen. A investigação ‘‘preliminar’’ do Pentágono verificou que ‘‘um de nossos aviões atacou o alvo errado porque as instruções de bombardeio dele estavam baseadas num mapa desatualizado’’, disse Cohen. ‘‘A Otan não tinha intenção de acertar a embaixada da China’’, acrescentou.France PresseWilliam Cohen disse que mapa desatualizado causou ataqueAssociated Press

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