China foi mais beneficiada com visita
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sábado, 04 de julho de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
Simpatizantes e críticos da visita do presidente Bill Clinton à China concordaram em um ponto ao avaliar os resultados da missão, encerrada na sexta-feira. Iniciada sob uma nuvem de controvérsia e recriminações em Washington, a viagem - a mais longa, e, segundo o próprio Clinton, a mais importante de sua presidência - mudou para melhor a atmosfera das relações entre os Estados Unidos e a China. Mas tanto aliados como adversários do presidente ressalvaram que, em termos substantivos, só o tempo dirá se a visita abriu uma nova era no diálogo entre os dois países, como quer a Casa Branca.
Os analistas entendem que, a curto prazo, a China ganhou mais do que os EUA com o evento, principalmente no reconhecimento simbólico de seu novo status de potência mundial. E coincidiram também em que o êxito político e diplomático de Clinton na China refletiu, em grande parte, o competente trabalho da máquina de propaganda da Casa Branca na montagem e na venda do evento aos norte-americanos, do começo ao fim: não por acaso, Clinton programou seu retorno a Washington para ontem, em plena festa nacional do dia da independência dos EUA. O triunfo do presidente fez a oposição mudar de discurso. O presidente da Câmara de Representantes, Newt Gingrich, o líder máximo dos republicanos, que havia pedido a Clinton para adiar a missão e preparara seu partido para explorar políticamente seu eventual fracasso, esqueceu os ataques e aplaudiu o resultado. Creio que o presidente fez um bom trabalho quando falou à rádio e televisão chinesas, disse Gingrich. A visita, acrescentou, foi menos custosa para os amigos do que para os inimigos.
Winston Lord, ex-secretário de Estado adjunto de administrações republicanas e um dos assessores-chave de Henry Kissinger nas visitas secretas a Pequim que abriram o caminho da normalização entre os EUA e a China, no início dos anos 70, também elogiou Clinton. Vista no seu conjunto, a visita foi positiva para os interesses dos EUA porque reafirmou e avançou a política de engajamento com a China iniciada na administração Nixon, disse ele. O presidente fez uma forte defesa dos direitos humanos, falando diretamente ao povo chinês, e a visita criou um clima mais favorável para o diálogo futuro sobre as questões centrais, que são Taiwan, a situação na Coréia do Norte, a não proligeração nuclear no sul da Ásia e a crise financeira asiática.
Para John Holdrige, ex-número dois na embaixada norte-americana em Pequim, o mérito da visita foi limpar o ar. Antes, havia um tal nível de suspeita entre os chineses sobre os EUA e entre nós, em relação à China, que nossas conversas não iam a lugar nenhum, disse. Agora, muito desse entulho foi removido e o diálogo poderá ser mais produtivo.
Os elogios vieram, no entanto, acompanhados de reparos. Rich Galen, um assessor de Gingrich, disse que a Casa Branca reduziu a tal ponto as expectativas sobre a visita que tornou quase inevitável seu sucesso como operação de marketing político.
O secretário de Estado adjunto para Ásia no último governo republicano, Paul Wolfowitz, fustigou as declarações e gestos de Clinton e seus assessores sugerindo que a China poderia assumir o lugar do Japão como principal aliado dos EUA na Ásia. As conversas sobre parceria com a China, um país com o qual continuamos a ter profundas divergências, e a não inclusão do Japão na viagem deram sinais equivocados, disse Wolfowitz. E há muito faz de conta nessa viagem, como, por exemplo, o acordo pelo qual a China deixará de mirar seus mísseis nucleares intercontinentais contra alvos nos Estados Unidos, que não é verificável e não tem qualquer sentido prático porque não leva mais do que minutos para redirecionar os mísseis, disse Wolfowitz.
O alcance limitado da visita foi resumido por Michael Murphy, um consultor de mídia republicano. Murphy previu ao New York Times que, apesar da capacidade demonstrada por Clinton de virar o jogo e transformar num sucesso uma viagem que, vista dos EUA, começara mal, os efeitos positivos da missão à China serão de curta duração e não ajudarão Clinton em casa.


