Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Veneza
France PresseCena de ‘‘Nenhum a Menos’’, dirigido por Zhang Yimou: prêmio de melhor filme‘‘Nenhum a Menos’’, produção chinesa dirigida por Zhang Yimou, ganhou o Leão de Ouro como melhor filme da 56ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, encerrada sábado à noite na Sala Grande do Palazzo del Cinema, na ilha do Lido, em Veneza. ‘‘Le Vent Nous Emportera’’, do iraniano Abbas Kiarostami, ficou com Grande Prêmio do Júri. Outro chinês, ‘‘Dezessete Anos’’, levou o Premio Especial pela melhor direção, conferido a Zhang Yuan.
Numa festa predominantemente asiática, o Ocidente teve que se contentar apenas com a Coppa Volpi para melhor ator e atriz, ao inglês Jim Broadbent pelo trabalho em ‘‘Topsy-Turvy’’, e à francesa Nathalie Baye pela interpretação em ‘‘Une Liaison Pornographique’’. O Prêmio Marcelo Mastroianni, que reconhece e incentiva um jovem ator emergente, ficou com a austríaca Nina Proll pela atuação no filme ‘‘Nortrand’’. A Medalha de Ouro da Presidência do Senado, para o filme que destaca o ‘‘progresso civil e a solidariedade humana’’, foi conferida a ‘‘Rien a Faire’’.
Muita improvisação e amadorismo, durante a rápida cerimônia de encerramento conduzida pela atriz Anna Galiena. Um blecaute deixou tudo às escuras por quase cinco minutos. Uma falha no sistema de som impediu que se ouvisse os agradecimentos de Zhang Yimou pelo Leão de Ouro ao melhor filme do festival. Uma tradutora equivocada e inconveniente quase põe a perder a emoção maior da noite - a entrega do Leão de Ouro especial pela carreira ao ator e diretor Jerry Lewis, que salvou sua parte dispensando os ridículos serviços da tradução.
Mesma sorte não teve o iraniano Abbas Kiarostami, que surpreendeu a todos anunciando em inglês que, a partir de agora, não mais pretende concorrer a prêmios em festivais, limitando-se à participações hors concours ou em mostras paralelas. A infeliz tradutora omitiu a revelação e expressou em italiano apenas os agradecimentos do diretor pelo Grande Prêmio do Júri. E nesta comédia de erros que durou cerca de 20 minutos e foi transmitida para toda a Europa pela RAI, todas as jovens e desconhecidas atrizes do cinema italiano chamadas para entregar os diversos prêmios não escondiam enfado e indiferença pela tarefa.
Os organizadores da cerimônia não se preocuparam sequer em garantir número suficiente de convidados que ocupassem todos os lugares da sala. Um operador de steady cam, cuja sombra aliás se via a todo momento platéia, por conta de uma iluminação mal programada, mostrava imagens revelando grandes claros na platéia.
Muito contestada a concessão de um novo e ambicionado prêmio, ‘‘Venezia Opera Prima - Luigi de Laurentiis’’, destinado ao melhor filme de diretor estreante. Os 100 mil dólares e os 20 mil metros de película Kodak foram parar nas mãos do italiano Giovanni Davide Maderna, pelo filme ‘‘Questo é il Giardino’’, apenas outra entre as diversas decepções que a Itália mostrou em Veneza. Entre mais de uma dúzia dos chamados prêmios colaterais, concedidos por entidades e associações diversas, o júri da Fipresci, a federação internacional que congrega os críticos de cinema, decidiu reconhecer considerar ‘‘Le Vent Nous Emportera’’ o melhor filme em competição. E o Premio OCIC - Oficio Católico Internacional de Cinema - foi dividido entre o americano ‘‘Jesus’Son’’, o polonês ‘‘Sete Dias na Vida de Um Homem’’ e o chinês ‘‘Dezessete Anos’’.
A grande curiosidade dos jornalistas em relação ao anúncio da retirada de Kiarostami do circuito internacional de concursos foi afinal satisfeita na coletiva após a cerimônia. Como sempre imperturbável, o iraniano disse que, depois de 30 anos como diretor, não vê mais razão para disputar prêmios, inúteis para seu cinema e para ele pessoalmente. ‘‘É hora da geração mais jovem que está surgindo no Irã.’’

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