Associated Press
De Pequim
Longe dos fogos de artifício com os quais a China comemorará o 50º aniversário do domínio comunista, na sexta-feira, milhares de migrantes, crianças de rua e mendigos estarão confinados em medonhos centros de detenção da polícia.
A polícia deteve milhões de chineses em centros de ‘‘custódia e repatriação’’, onde há falta de instalações e de medidas de higiene básicas, como revela um grupo de defesa dos direitos humanos em relatório divulgado ontem.
Crianças, doentes mentais, pessoas sem teto e outras consideradas presenças indesejáveis ou desagradáveis à vista, estão apinhados nesses centros, onde são espancados e forçados a trabalhar longas horas sem receber pagamento – o que constitui violação de tratados internacionais assinados pela China, afirma o grupo de defesa de direitos humanos na China, que opera a partir de sua sede em Nova York.
O Partido Comunista organizou comemorações de gala, que incluirão uma grande parada militar, danças para as massas e fogos de artifício, para comemorar a data de 1º de outubro de 1949, quando foi fundada a República Popular da China.
Para muitos chineses, a ocasião proporciona um feriado de sete dias, recebido com alegria, e a oportunidade de andar em ruas reformadas recentemente e adornadas com luzes e flores.
Entretanto, temendo distúrbios civis ou outros problemas, as autoridades estão impondo medidas de segurança extremamente rígidas. Os moradores serão mantidos a distância dos desfiles por cordões policiais e o tráfego será forçado a parar, em grande parte da capital.
Foi uma revolução rural que ajudou a colocar os comunistas no poder, em 1949. Mas, para os milhões de migrantes que se transferiram para Pequim e outras cidades em grandes levas, em busca de salários mais altos do que os pagos na zona rural empobrecida, os períodos delicados do ponto de vista político, como o prelúdio do aniversário, são perigosos.
As pessoas que não têm autorização legal para viver nas cidades correm o risco de ser presas, de acordo com um processo conhecido como ‘‘custódia e repatriação’’. A polícia às vezes detém pessoas que têm os papéis legais quando estas falam com pronúncia diferente ou estão mal vestidas.
A mídia controlada pelo Estado informou que a polícia deteve mais de 16 mil migrantes e outras pessoas que não portavam documentos oficiais, não tinham emprego ou residência fixa em Pequim, neste mês.
Segundo o relatório do grupo de direitos humanos na China, 2 milhões de pessoas estão detidas nos termos do processo ‘‘custódia e repatriação’’. Um quinto das pessoas detidas é formado por crianças.
Entre as demais incluem-se pessoas sem teto, doentes mentais, vítimas de sequestro, prostitutas e pessoas que viajaram da zona rural para as cidades para fazer queixas ao governo.
Os centros de detenção da polícia ‘‘quase sempre são pouco mais do que cercados de animais para aqueles cuja presença nas ruas da cidade é considerada inconveniente, assim como quaisquer outras pessoas que os oficiais da polícia decidem mandar para lá ’’ ressalta o relatório.
Uma autoridade policial admitiu que há muitas pessoas detidas, mas disse que o número não pode ser divulgado. Outras pessoas contatadas negaram-se a falar sobre o assunto.
A própria mídia controlada da China informou que as condições nos centros de detenção, são precárias. Quase não há informações independentes no país, em virtude do sigilo mantido pelo governo, mas o teor do relatório do grupo de direitos humanos é coerente com outras descrições feitas por ex-detidos, alguns dos quais foram recolhidos aos centros por razões políticas.
O relatório cita publicações oficiais, afirmando que as condições, em muitos dos centros, são perigosas – são locais imundos, úmidos e escuros, com ventilação inadequada.
Embora os centros sejam apresentados como locais patrocinados pelo serviço de bem-estar social, destinados a oferecer ajuda, educação e reassentamento, as pessoas são mantidas lá durante semanas, meses, às vezes anos.
Os detidos com 12 anos de idade ou mais são obrigados a trabalhar de 12 a 14 horas por dia, geralmente sem receber pagamento, e quando são liberados têm a obrigação de pagar por sua permanência nesses centros, de acordo com o relatório.
Um homem, identificado no relatório como Ling X, da Província de Hubei, situada na China Central, foi detido em Shenzhen, uma cidade florescente próxima a Hong Kong, embora estivesse com seus documentos de identidade em ordem. Quando ele fez objeção à tentativa de detê-lo, um policial rasgou sua licença de residência temporária na cidade.
Outro homem, identificado como técnico de fábrica, de sobrenome Zhou, da Província de Sichuan, foi detido com a namorada em Shenzhen.
Mais tarde ela foi posta em liberdade e pagou a fiança de Zhou. ‘‘Eu já estava pensando que, se ninguém fosse me tirar de lá, eu cometeria suicídio se tivesse de passar mais um dia naquele local’’, disse Zhou. Como resultado de sua detenção, ele perdeu o emprego.
Os migrantes rurais ofereceram grande parte da força muscular que determinou o boom econômico do país. Eles trabalham em fábricas, dirigem pequenas lojas e restaurantes, recolhem o lixo. Mas frequentemente são acusados pelo aumento do índice de crimes e de outros problemas sociais.
As autoridades de Pequim pretendem, segundo afirmaram, forçar a metade dos 3 milhões de moradores migrantes a partir. Inicialmente a campanha estabeleceu a meta de expulsar 300 mil pessoas. O rápido aumento do número de pessoas detidas agravou a falta de recursos desses centros.Partido Comunista organiza comemorações de gala em Pequim, enquanto grupo de direitos humanos divulga relatório sobre medonhos centros de detenção
France PresseADORNO Trabalhadores descansam sobre o tapete vermelho colocado em frente ao portão da Praça da Paz Celestial, em Pequim

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