Chile lembra os 27 anos do golpe militar
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segunda-feira, 11 de setembro de 2000
Associated Press e France Presse De Santiago 
Os chilenos recordaram ontem, com maior tranquilidade do que nos anos anteriores mas ainda profundamente divididos, o golpe militar liderado há exatos 27 anos pelo ex-ditador Augusto Pinochet, que pela primeira vez se encontra às portas de um julgamento.
Centenas de manifestantes se reuniram diante do palácio, presidencial e junto à estátua do ex-presidente Salvador Allende, derrubado pelos golpistas, enquanto os chefes militares recordavam, com uma missa na Escola Militar, o aniversário do cruento golpe.
Pinochet, de 84 anos, não assistiu ao ofício religioso, como costumava fazer todos os anos. Aparentemente, sua ausência foi devida a um ferimento no pé agravado por sua diabetes um dos vários males de que padece, e que seus defensores utilizam como argumento para tentar livrar o general de enfrentar o processo pelo sequestro de 19 prisioneiros políticos.
Em 8 de agosto, o ex-mandatário perdeu sua imunidade parlamentar como senador vitalício e está à disposição da Justiça. Do lado de fora da Escola Militar, reuniram-se centenas de pinochetistas à espera de poder saudar seu líder. Na noite de ontem, dois filhos de Pinochet participaram de um baile em comemoração à data.
Já o falecido presidente Allende foi homenageado por numerosas delegações de organizações políticas, reunidas diante de sua recém-inaugurada estátua. A viúva do ex-presidente, Hortencia Bussi, depositou flores diante do monumento. Ela estava acompanhada pelas filhas Isabel, que é deputada, e Carmen Paz, além de dirigentes do Partido Socialista ao qual pertencia Allende.
No final do breve ato de homenagem, Isabel Allende disse que este 11 de setembro foi muito diferente, porque Pinochet perdeu a imunidade, e porque temos aqui a estátua de meu pai o que era um dos nossos objetivos, e cuja realização nos deixa muito felizes.
Por sua vez, a viúva Hortencia falou em nome de todos os chilenos ao dizer que nenhum deles perde a esperança de ver rolar uma lágrima pelo rosto de Pinochet, em sinal de arrependimento pelos abusos contra os direitos humanos cometidos durante seu longo regime.
Nós, chilenos, queremos ouvir, por uma vez, Pinochet pedir perdão e derramar ao menos uma lágrima, falou Hortencia diante do monumento a seu marido.
Na véspera, domingo, o ministro do Interior, o socialista José Miguel Insulza, também havia dito que espera ver o ex-ditador derramar uma lágrima por todos meus irmãos mortos. Continuo esperando, não é muito pedir isso, dizer que é uma pena que tenham morrido e que oxalá isso não tivesse acontecido.
O presidente do Partido Socialista, o senador Ricardo Nuñez, foi outro que pediu um sinal de arrependimento de Pinochet , acrescentando que muitos socialistas derramaram hoje uma lágrima por aqueles companheiros que já não estão mais conosco.
No entanto, nem Pinochet nem os outros altos chefes militares e a oposição direitista admitem ter do quê se arrepender. Oficialmente, a ditadura de Pinochet deixou 3.197 mortos, dos quais mais de mil continuam desaparecidos.
Autoridades cubanas inauguraram ontem em Havana um monumento em bronze de Salvador Allende. Trinta pessoas assistiram ao ato presidido pelo historiador de Havana, Eusebio Leal, e pelo embaixador chileno em Cuba, Germán Guerrero.
O monumento, que mostra Allende como se estivesse pronunciando um discurso, foi doado por chilenos radicados na Espanha e é obra da escultora chilena Mónica Bunster.
Allende foi amigo próximo de Fidel Castro, que o visitou no Chile em 1971, dois anos antes do golpe militar.
A arma com que Allende se suicidou durante o golpe tem inscrita a seguinte legenda:Ao meu amigo e companheiro de armas Salvador Allende e é assinada por Fidel.
Ao tomar o poder, Pinochet rompeu relações com Cuba e a agora extinta União Soviética, acusando-as de querer implantar no Chile o sangrento marxismo.


