Chefe da OEA assume jornada contra líderes de esquerda
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quinta-feira, 02 de julho de 2020
SYLVIA COLOMBO 
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Três semanas após a morte de Hugo Chávez (1954-2013), o chanceler do Uruguai à época, Luis Almagro, deu uma entrevista à emissora Telesur na qual dizia que "Nicolás Maduro é a consolidação de um processo de sucesso tanto na política interna quanto na projeção internacional da Venezuela".
O país vivia, naquele momento, uma campanha eleitoral para eleger o sucessor do presidente, vítima de um câncer aos 58 anos. Não era a primeira vez que Almagro elogiava o chavismo. Já havia feito o mesmo em discurso na Assembleia Nacional, em Caracas, quando Chávez era vivo.
Desde que foi eleito secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), em março de 2015, no entanto, a batalha pelo fim do chavismo virou seu principal objetivo.
Com Almagro, a OEA deixou de ser um organismo facilitador do diálogo pelo fim de crises institucionais e pró-defesa de direitos humanos para ganhar contorno de instituição política, que adota uma linha clara de defesa da direita na América Latina. Em março, com essa mesma bandeira, foi reeleito ao cargo.
De 2015 para cá, o uruguaio apoiou a criação do Grupo de Lima, a autoproclamada presidência do opositor Juan Guaidó e o discurso de países como EUA e Colômbia em favor de que, para a saída de Maduro do poder, "não se deve descartar nenhuma opção sobre a mesa, incluindo a militar".
Qual dos dois Almagros é o verdadeiro? O que elogia o regime venezuelano ou o que hoje busca intervir em situações de crises internas, sempre contra populistas e ditadores de esquerda, como na Bolívia e na Nicarágua?
"Provavelmente ambos", diz o analista político uruguaio Daniel Chasquetti. "Quando era chanceler do [ex-presidente Pepe] Mujica, Almagro se entusiasmou com a agenda progressista ousada do Uruguai para a política externa. Ele pegou carona na projeção internacional de Mujica."
Quando eleito à secretaria-geral da OEA, no entanto, explica Chasquetti, o vento político da região havia mudado de direção, e ele achou que devia se converter para ser relevante. "E os recém-convertidos sempre costumam ser mais radicais, porque só assim se sobressaem."
A mudança radical de opinião sobre a Venezuela pode ter custado o fim de sua vida pública no Uruguai. Amigos e diplomatas dizem que ele tinha ambições de fazer uma carreira política no país e, talvez, até de se apresentar como candidato a presidente pela esquerdista Frente Ampla.
Só que o partido, liderado pela ala "tupamara" - de esquerda mais radical e comandanda por Mujica -, pediu sua saída. Em reunião do tribunal disciplinário, no fim de 2018, foi expulso por unanimidade.
Mas o momento decisivo da OEA sob seu comando foi na última eleição da Bolívia, que começou em 2018, nas primárias presidenciais, e ainda não terminou, já que o pleito foi anulado após denúncias lideradas por Almagro de fraude na contagem de votos. Haverá novo pleito em 6 de setembro.
Antes, quando Evo Morales quis se candidatar ao quarto mandato consecutivo por meio de manobra, o uruguaio não se opôs, "talvez porque não quisesse ter as mesmas dores de cabeça que tem com a Venezuela", diz o ex-presidente boliviano Carlos Mesa, adversário de Evo em 2019.
Na ocasião, a OEA considerou legítimo o argumento o líder indígena, para quem concorrer em uma eleição é um direito humano garantido por tratados internacionais, interpretação que estaria acima do que diz a Constituição do país, que aceita uma reeleição.
Depois, porém, quando Evo declarou ter vencido o pleito em uma contagem sob denúncias de irregularidades e vaivéns, Almagro mudou de ideia.
O chefe da OEA também deu sinais confusos sobre a Nicarágua. Ao mesmo tempo em que denunciou violações de direitos humanos da ditadura de Daniel Ortega, os enviados do órgão ao país mantiveram reuniões de trabalho - e recreativas - com os sandinistas que apoiam o orteguismo.
Cuba foi outro tema que viu as duas versões de Almagro. Logo que assumiu o cargo de secretário-geral, disse que faria de tudo para que a ilha retornasse à OEA. Alguns anos depois, declarou que aquela era "a pior ditadura das Américas" e deixou o plano de lado.
Aos 57 anos, Almagro começou sua vida política no Partido Nacional, o mesmo do atual presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou. Amigos o definem como alguém afeito ao diálogo e bem-humorado, um sujeito simples que costuma mostrar o lado informal sempre que possível. Vai trabalhar de mochila, como fez toda a vida, e gosta de ficar em bares com pessoas próximas por horas.
É torcedor do Nacional, um dos dois grandes times de futebol do Uruguai, ao lado do Peñarol, e vegetariano . Joga xadrez desde a infância. Leitor de poesia e ouvinte de música popular, é fã de Jaime Roos, compositor que mistura rock com ritmos do Rio da Prata, como candombe e milonga. Tem sete filhos e é casado com a sul-africana Marianne Birkholtz, também diplomata. A diplomacia, aliás, permeia a vida de Almagro.
Entre 2007 e 2010, durante a primeira gestão de Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, foi embaixador na China. Voltou ao Uruguai a convite de Mujica para ser chanceler.
O ex-tupamaro tinha planos ousados para a política externa uruguaia. Foi sob a condução de Almagro que o país abriu um programa pioneiro de recepção de refugiados sírios e atendeu a um pedido do então presidente dos EUA, Barack Obama, de abrigar ex-prisioneiros de Guantánamo.
Também durante o período de Almagro como chanceler, o Uruguai apoiou a expulsão do Paraguai do Mercosul, em 2012, e a entrada da Venezuela, mesmo sem cumprir todos os requisitos do estatuto do órgão --hoje o Paraguai está de volta, e a Venezuela, suspensa por tempo indeterminado.
Sua reeleição à frente da OEA, em março, teve forte rejeição de Argentina e México.
Recentemente, Almagro saiu em defesa de Jair Bolsonaro contra o New York Times, que publicou reportagem sobre riscos de uma ameaça militar no Brasil. Pouco depois, soltou comunicado da OEA com ataques ao que chama de "campanha de difamação" do jornal à atuação do órgão nas eleições bolivianas, ação decisiva para a renúncia de Evo.
Procurado, Almagro, por meio de sua secretária, informou que não está concedendo entrevistas.


