Caracas, Venezuela - Hugo Chávez começa a cantar, com voz potente, o hino da Venezuela, acompanhado por uma multidão nos arredores do palácio presidencial em Caracas. Tudo transmitido em cadeia nacional de rádio e TV. A voz do presidente é, porém, apenas uma gravação.
Convalescente em Cuba, Chávez não participou da festa montada em sua homenagem ontem na capital do país, espécie de blindagem popular para a decisão do governo, chancelada pela Justiça, que adia, sem nova data, a cerimônia de posse do novo mandato presidencial prevista para ontem.
O lema da mobilização é "Yo Soy Chávez" (Eu sou Chávez), estampado em camisetas distribuídas pelo governo, e "Yo me Juramento con Chávez'' ("eu juro com Chávez", em espanhol).
"Enquanto Chávez estiver vivo será nosso presidente. É assim que deve ser", diz Dulis Méndez, de 52 anos, que viajou mais de dez horas para chegar a Caracas para a festa. "O presidente somos todos nós. Chávez manda obedecendo o povo", diz Méndez, que veio num ônibus pago pelo partido chavista, ecoando palavras frequentes do presidente.
Num palco, músicos venezuelanos, uma miss que saúda a multidão e representantes dos governos vizinhos, entre eles o chanceler argentino Hector Timerman, que foi o primeiro a falar.
Os presidentes José Mujica (Uruguai), Evo Morales (Bolívia), Daniel Ortega (Nicarágua) e altos funcionários de vários países pertencentes à Petrocaribe, a iniciativa venezuelana que vende petróleo a preços subsidiados a países pobres, especialmente do Caribe.

Polêmica
Anteontem, o Tribunal Supremo de Justiça, a principal corte do país, chancelou o adiamento indefinido da posse de Chávez. Desta forma, os magistrados ratificaram a visão chavista de que a cerimônia de posse é uma formalidade sem data estipulada na Constituição. A data firmada pela Constituição, 10 de janeiro, vale só para a cerimônia no Legislativo - posteriormente, a posse ocorre ante do TSJ.
Para os magistrados, a posse pode ser adiada porque é o próprio Chávez quem encabeça o próximo mandato. Há também continuidade administrativa e o vice-presidente, Nicolás Maduro, seguirá no cargo, assim como os demais ministros.
A oposição rejeita energicamente a interpretação, que classifica de "grave violação da ordem constitucional". Dizem que a leitura do artigo 231 é casuística e que o mandato de Chávez 2007-2013 terminou ontem e que hoje o presidente da Assembleia Nacional deveria assumir interinamente o poder.
O argumento é que o posto, ocupado pelo chavista Diosdado Cabello, é o primeiro eleito por voto direto depois de Chávez. Questionam especialmente a legitimidade de Maduro seguir no posto atual a partir de hoje.
À diferença do Brasil, o vice não faz parte da chapa eleitoral. É um cargo de livre nomeação pelo presidente que teria de ser validado, na leitura dos antichavistas, para o próximo período constitucional.

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