Jean Chesnot/France PresseOutra caraReprodução de desenho do Chacal no tribunal: revolucionárioCarlos, o Chacal, que em 20 anos de violento terrorismo deixou um saldo de pelo menos 20 mortos e dezenas de feridos, inválidos e mutilados na Europa, começou a ser julgado ontem em Paris pelo assassinato de apenas três pessoas. Traído pela ditadura islâmica do Sudão, que o asilava, o terrorista foi detido em 1994 em Cartum pela própria polícia sudanesa que, depois de drogá-lo e amarrá-lo como um pacote, o entregou a agentes secretos franceses.
O jovem venezuelano terrorista dos anos 70, hoje um senhor gordo de 48 anos, com fino bigode e óculos, bem vestido e com um lenço colorido no pescoço, respondeu às primeiras perguntas formais do tribunal atribuindo-se como profissão ‘‘revolucionário profissional da velha tradição leninista’’, e explicando, a propósito de seu domicílio, que ‘‘o mundo é meu domínio, meu último endereço era Cartum’’.
Ironia da história: este sequestrador profissional foi por sua vez sequestrado em Cartum pelas polícias do Sudão e da França, e por isso se queixou hoje e estimou que seu processo atual é ‘‘ilegal’’ porque ‘‘legalmente não estou aqui’’.
Como Maurice Papon, atualmente processado na França por enviar centenas de judeus para morrer na Alemanha nazista nos anos 40, o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez, aliás Carlos, aliás Chacal, não tem remorsos pelos mortos e pelos sobreviventes cujas vidas foram cortadas por seu terrorismo cego.
RevolucionárioAnte o tribunal foi inclusive mais longe do que Papon frente às vítimas, impugnando a possibilidade de que a associação francesa SOS Atentados possa participar como parte civil em seu processo. ‘‘SOS Atentados explora a pena das vítimas’’, disse.
O tribunal se pronunciará segunda-feira próxima sobre as duas impugnações formuladas por Carlos, isto é, que o processo não possa se realizar porque é ilegal e que SOS Atentados não possa participar como querelante contra ele.
Chacal também impugnou o advogado das vítimas, Francis Spiner, acusando-o de ‘‘militante sionista revisionista’’. Sua advogada, Isabelle Coutant, sustenta ademais que seu cliente não pode ser tratado como ‘‘terrorista’’ porque é um ‘‘revolucionário comunista’’. Carlos não está sendo julgado por seus múltiplos crimes mas apenas por três assassinatos e os demais horrores devem ser objeto de cinco outros processos nos quais já foi declarado réu.
Desde 1994 o Chacal passa seus dias na prisão vendo televisão, lendo livros, jornais e revistas, usando cosméticos, fumando charutos e vestindo griffes.

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