Reali Júnior Agência Estado
Apesar da ‘‘exceção francesa’’, ou seja, a vitória da esquerda nas eleições para o Parlamento Europeu encerradas neste domingo, graças aos socialistas e aos verdes, no restante da Europa os social-democratas foram fortemente derrotados. E em grande parte por causa dos naufrágios do Partido Social-Democrata alemão e do Partido Trabalhista Britânico, permitindo uma inversão de maioria na Assembléia de Estrasburgo. Os democrata-cristãos e seus aliados do Partido Popular Europeu (PPE) passaram de 201 cadeiras para 224, tornando-se a primeira força política européia, enquanto o Partido Socialista Europeu (PSE), que dispunha de 214 cadeiras, caiu para 180.
Além dessa consequência, a derrota dos social-democratas deve prejudicar a articulação iniciada antes do pleito para a eleição do ex-presidente socialista português Mario Soares à presidência do Parlamento (mesmo que um acordo político entre os dois principais partidos permita a alternância na presidência). Pela primeira vez na história desse Parlamento, os conservadores são maioria. Os social-democratas perderam 34 cadeiras - um forte recuo em relação à posição anterior. Os trabalhistas britânicos, com apenas 28% dos votos, perderam mais da metade de sua bancada e têm agora 29 cadeiras.
Os maiores derrotados, entretanto, foram o partido do chanceler alemão, Gerhard Schroeder, o SPD, e seu principal aliado, os verdes. A democracia-cristã alemã (CDU), partido do ex-chanceler Helmut Kohl, obteve uma revanche importante oito meses após ter perdido o poder: com seus aliados, conquistou 48,7% dos sufrágios, 13 pontos percentuais a mais do que no último pleito europeu, em 1994, permitindo a eleição de 53 eurodeputados. Os social-democratas elegeram apenas 33.
Esse é o quadro geral na Europa, pois em países como Grécia, Itália e Espanha a esquerda também foi derrotada. Só não está inserida nesse quadro a França, onde a lista socialista de François Hollande obteve um excelente resultado: mais de 22% dos votos. Na França, ao contrário de Alemanha e Grã-Bretanha, a explosão ocorreu nos partidos da direita moderada, um duro revés para o presidente Jacques Chirac, da Reunião pela República (RPR), que não soube manter unidas as diversas forças de centro e direita que o apóiam. A própria dissidência do partido de Chirac, liderada por Charles Pasqua, obteve melhor resultado nas urnas do que o tradicional partido gaullista.
Esse pleito foi marcado pela maior abstenção na história das eleições européias (43,2%). O recorde da abstenção ocorreu na Grã-Bretanha, com 77%, revelador das dificuldades que o primeiro-ministro Tony Blair terá para fazer com que os ingleses engulam a pílula do euro, a moeda única européia, à qual os britânicos ainda não se associaram.
Os verdes obtiveram um excelente resultado na França e outros países, menos na Alemanha, onde sofreram as consequências de sua aliança governamental com os social-democratas de Schroeder. Na Bélgica, por exemplo, os verdes tiveram sua vitória ampliada por causa da crise do frango com dioxina, na reta final da campanha. Eles conseguiram aumentar significativamente sua bancada em nove deputados, passando de 27 para 36 representantes.
Pela primeira vez também, a extrema esquerda européia, graças à votação obtida na França pela aliança entre Arlette Laguiller e Alain Krivine, terão cinco deputados no Parlamento de Estrasburgo. De qualquer forma, mesmo com a alternância entre os dois grupos majoritários, o PPE, que passa a ser o principal partido, e o PSE, o segundo no Parlamento Europeu, o comportamento do Legislativo não vai mudar muito, pois os quatro grandes grupos mantêm sua posição. Mas os liberais e os verdes saíram fortalecidos.
O Partido Verde constitui um aliado objetivo dos socialistas, mas algumas vezes se transforma num parceiro indigesto, como, por exemplo, quando se desenvolve o debate sobre a questão nuclear. A defesa intransigente do consumidor, pelos verdes, poderá também aumentar as tensões com os socialistas no governo.
Esse resultado, entretanto, segundo prognósticos dos analistas vai provocar turbulências na esquerda européia, cuja linha ‘‘social-liberal’’ de Blair e Schroeder perdeu uma batalha importante. Por outro lado, o grupo mais fiel aos princípios de esquerda, os socialistas franceses, obteve um resultado muito melhor.Maiores derrotados: os trabalhistas de Tony Blair e os sociail-democratas de Schroeder
France PresseMudança de rumoO ex-presidente socialista português Mario Soares está cotado para presidir o Parlamento Europeu. O fraco desempenho da esquerda, entretanto, prejudica a articulação

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