Argel
Centenas de civis foram queimados vivos e outros 117 tiveram a garganta cortada em dois novos ataques na Argélia, informou ontem o jornal argelino ‘‘La Tribune’’, culpando o Grupo Islâmico Armado (GIA) pelas matanças. Preocupados com a escalada da violência no país, os EUA pediram ontem que o governo argelino permita a realização de uma investigação internacional sobre as chacinas. Desde o início do Ramadã (mês sagrado muçulmano), no dia 30, ataques atribuídos a integristas islâmicos já mataram mais de 600 pessoas na Argélia.
Segundo o ‘‘La Tribune’’, um dos piores massacres dos seis anos de conflito ocorreu na noite de domingo para segunda-feira na vila de Had Chekala, na província ocidental de Relizane. ‘‘Não houve sobreviventes em Had Chekala, transformada em fogo e sangue durante a noite’’, assinalou o jornal. ‘‘Os terroristas, estimados em mais de 30, arrasaram a vila, de acordo com testemunhas’’, acrescentou. ‘‘Várias centenas de pessoas morreram queimadas.’’
Na madrugada de domingo, 117 pessoas foram degoladas em Remka, também na região de Relizane (240 quilômetros a oeste de Argel). Incapazes de conter a violência, as autoridades decidiram dar armas a 200 moradores locais para que formem um grupo de autodefesa.
Entretanto, muitos habitantes da região ocidental do país decidiram ir para outras áreas, na tentativa de escapar da violência. O êxodo foi divulgado pela ‘‘Radio France Internationale’’. ‘‘As pessoas estão abandonando a região, há tratores com trailers e todo tipo de veículos sendo carregados com tudo que os moradores podem levar’’, assinalou a emissora.
Por iniciativa da Alemanha, a União Européia está discutindo formas de ajudar o governo argelino a combater o terrorismo e de enviar ajuda às famílias das vítimas dos massacres. O porta-voz do Departamento de Estado americano, James Rubin, disse ontem que organizações não-governamentais e a ONU também poderiam unir-se aos esforços para acabar com a violência. ‘‘Encorajamos o governo argelino a permitir investigações internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país - e também encorajamos organizações independentes a realizar tais inquéritos.’’
Segundo Rubin, a Argélia - que tem rejeitado publicamente qualquer ‘‘interferência externa’’ - informou a funcionários americanos que aceitaria a visita de um supervisor de direitos humanos da ONU. Mas um diplomata argelino em Genebra disse que a visita não poderia ser considerada uma ‘‘missão de investigação’’.
Um porta-voz das Nações Unidas disse que uma equipe de investigação pretende ir à Argélia este ano. Representantes da alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Mary Robinson, estão em contato com autoridades argelinas para que a visita ocorra ‘‘o quanto antes’’, acrescentou.
O chanceler do Irã, Kamal Kharazi, pediu que a ONU intervenha para deter a ‘‘intriga criminosa’’ que está ocorrendo na Argélia. ‘‘No santo mês do Ramadã, um povo heróico que realizou uma grandiosa guerra por sua liberdade é hoje vítima de uma intriga criminosa, com o silêncio suspeito das sociedades ocidentais e sua indiferença diante do genocídio de inocentes’’, afirmou. ‘‘A ONU deve agir usando todas suas possibilidades e seu poder de intervenção em defesa desse povo martirizado.’’
A revolta integrista na Argélia começou em 1992, depois que o governo anulou eleições parlamentares cujo primeiro turno fora vencido pela Frente Islâmica de Salvação (FIS). Desde então, mais de 60 mil pessoas já foram mortas no conflito.

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