Catalunha declara independência, recua e pede diálogo com Madri
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terça-feira, 10 de outubro de 2017
Diogo Bercito<br>Folhapress 

Barcelona - O presidente catalão, Carles Puigdemont, declarou a independência da Catalunha nesta terça-feira (10). Mas, em seguida, frustrando seus aliados separatistas, pediu que legisladores suspendessem a proclamação por semanas para que houvesse diálogo. Essa parece ter sido a fórmula encontrada por seu gabinete para declarar a independência, como vinha prometendo para a população, e evitar o confronto imediato com o governo em Madri. Puigdemont afirmou ter recebido um "mandato do povo para que a Catalunha se transforme em Estado independente sob forma de república". Em seguida, ele assinou a um documento declarando a independência.
Os separatistas CUP (Candidatura de Unidade Popular) e Junts pel Sí, aliança que Puigdemont integra, assinaram o documento diante de câmeras após a plenária. O texto de quatro páginas é incisivo quanto à independência e não cita a suspensão pedida pelo presidente.
Com o embargo, Puigdemont disse ter feito "um gesto de responsabilidade e generosidade, voltando a estender a mão ao diálogo". "Não somos loucos. Não somos golpistas. Somos gente normal que esteve disposta a todo o diálogo necessário", afirmou ao Parlamento.
A manobra, no entanto, parece ter apenas prolongado o caos político na Espanha. Os próprios legisladores ficaram confusos após a fala de Puigdemont. Miquel Iceta, deputado do Partido Socialista Catalão, afirmou: "Não é possível suspender uma declaração que não foi feita".
Já Anna Gabriel, deputada pelo separatista CUP, decepcionada com o presidente, disse que "talvez tenhamos perdido uma oportunidade". "Pensávamos que haveria uma proclamação solene."
A decepção transbordava nas ruas. As multidões que assistiam à declaração de Puigdemont nos arredores do Parlamento rapidamente se dissiparam. Uma hora depois, já não havia grandes mobilizações em Barcelona.
O país e governos estrangeiros aguardam agora a reação de Madri. Mesmo com a suspensão da declaração, o premiê Mariano Rajoy não descarta suspender a autonomia parcial da Catalunha e antecipar a eleição regional. O jornal "El Mundo" diz que o gabinete de Rajoy considera a declaração catalã inadmissível e fará reunião de emergência nesta quarta (11).
Não existe cenário aparente em que esse conflito se dissipe rapidamente. Caso não reaja, Rajoy arrisca fortalecer o movimento separatista. Mas se usar a força, reforçará a queixa dos separatistas à repressão por Madri.
PLEBISCITO
A proclamação foi feita - e em seguida suspensa - no Parlamento regional após semanas de tensão política. Em 1º de outubro, catalães haviam votado em um plebiscito separatista considerado ilegal pelo governo central. Embora a consulta tenha resultado em 90% dos votos para o "sim", menos da metade - 43%- do eleitorado catalão participou. Quase 900 pessoas ficaram feridas em embates com a polícia nacional espanhola.
A Catalunha já tem uma série de liberdades, como seu próprio Parlamento e sua polícia. Mas o separatismo ganhou força nos últimos anos. No campo econômico, a separação é justificada pela pujança. Essa região corresponde a 20% do PIB espanhol, que é hoje de US$ 1,2 trilhão, e separatistas alegam que uma Catalunha independente poderia crescer mais. Nesta terça, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu (órgão Executivo da União Europeia), pediu que Puigdemont não agisse para "impossibilitar o diálogo".
Região foi independente por um dia
A declaração de independência da Catalunha, feita nesta terça (10) e imediatamente suspensa, não tem um precedente animador. Em 6 de outubro de 1934, o então líder catalão Lluís Companys anunciou a separação desse território, estabelecendo uma república - por só um dia.
Companys disse à multidão na praça Sant Jaume, segundo o jornal "El País": "Nesta hora solene, em nome do povo e do Parlamento, o governo que presido assume as faculdades do poder na Catalunha e proclama o Estado catalão da República Federal Espanhola".
A insurreição levou a 80 mortos e Companys foi preso, encerrando a república. Em 1940, durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), ele foi fuzilado. O então presidente catalão representava o partido Esquerda Republicana, do ao qual pertence hoje o vice-presidente catalão, Oriol Junqueras.
A história foi lembrada nesta segunda (9) por Paglo Casado, vice-secretário de comunicação do Partido Popular que governa a Espanha. Ele disse que "as declarações de independência anteriores não acabaram bem". Casado comparou o presidente catalão, Carles Puigdemont, com Companys, sugerindo que pode ter o mesmo fim. O discurso foi recebido com choque.


