Caso Boeing revela relações turvas no Governo
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domingo, 07 de dezembro de 2003
France Presse 
Nova York - Os escândalos em torno da Boeing revelaram as relações que chegam praticamente ao conflito de interesses entre fabricantes americanos de armamento e seu principal cliente, o Pentágono, de quem depende em grande parte suas ordens de compra.
Contratação de altos funcionários governamentais em condições obscuras, laços políticos e financeiros, generosas compras... O caso Boeing, no qual se misturam conflitos de interesses e espionagem industrial, não pára de revelar as práticas comuns no setor, ferindo frontalmente a ética.
No início do ano, a Boeing havia contratado a ex-alta funcionária do setor de compras da Força Aérea Americana, Darleen Druyun, que teria negociado seu contrato quando ainda ocupava esse cargo na aviação militar, o que implicava transações com a própria Boeing.
Em particular, quando a Boeing negociava um contrato de 18 bilhões de dólares pela compra de aviões de reabastecimento em vôo com o Pentágono, Druyun teria informado ao grupo americano sobre a oferta de sua concorrente européia, a Airbus.
A Boeing, que obteve o contrato, livrou-se bruscamente dela e de seu diretor financeiro, Mike Sears, há uns dez dias. O presidente do grupo, Phil Condit, foi forçado a se demitir pouco depois.
O Pentágono lançou uma investigação sobre a negociação do contrato para a compra dos aviões, que também foi suspenso.
Mas a súbita severidade do Pentágono e a virtude reencontrada da Boeing - que o novo presidente Harry Stonecipher prometeu transformar em provedor ''exemplar'' do Governo americano - não permitem alimentar muitas ilusões.
O senador republicano John McCain denuncia há meses o ''roubo militar-industrial'' a que se dedica o Departamento de Defesa, ao qual acusa de passar generosas ordens a seus provedores, em primeiro lugar a Boeing.
McCain pretende também solicitar uma investigação ao Congresso sobre a onda de altos funcionários governamentais que passaram para a Boeing nos últimos anos, segundo afirma a revista US News em sua edição da próxima segunda-feira.
O próprio Pentágono não está livre de acusações por procedimentos pouco claros.
Em maio passado, o diretor de compras do Pentágono, Edward Aldridge, foi contratado pela empresa Lockheed Martin pouco depois de aposentar-se, embora tenha permanecido como conselheiro do secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld, para a estratégia de compra de armas.
Além disso, a convivência entre industriais de armamentos e o Governo se estende à esfera política e financeira e esses laços são às vezes muito estreitos e difíceis de desfazer.
A Boeing tem uma participação de 20 milhões de dólares em um fundo de investimento administrado por Richard Perle, um dos principais conselheiros do Pentágono, segundo o Financial Times.
O gigante da aeronáutica investiu também outros 20 milhões de dólares no Paladin Capital Group, um fundo de investimento com sede em Washington dirigido por James Woosley, que integra atualmente o conselho político de Defesa, um órgão encarregado de aconselhar a Rumsfeld.
''Quantos caminhos têm as empresas (de defesa) para influenciar o Governo? A a resposta é: muitos'', afirmou esta semana no Wall Street Journal Kem Boehm, presidente do Centro nacional legal e político, uma organização não governamental com sede em Washington.


