Camponeses frustram campanha
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sábado, 28 de abril de 2001
Associated Press De San Vicente de Luzón 
Em pouco tempo, aviões fumigadores oferecidos pelos Estados Unidos destruíram um terço da colheita de coca em San Vicente de Luzón, fértil rincão da Colômbia. Mas em alguns campos, as novas plantas da espécie utilizada para elaborar cocaína já chegam na altura do joelho. Os camponeses que a cultivam dizem que é sua única fonte de renda.
Washington e Bogotá prometeram que o ataque aéreo afetará apenas a produção de magnitude industrial e com isso virão milhões de dólares em ajuda para o desenvolvimento. Em La Dorada, aldeia controlada por paramilitares, foram eliminadas grandes plantações de coca, além dos barracos onde dormiam os trabalhadores.
Nas proximidades de San Vicente de Luzón, parcelas de menos de meio hectare, cultivadas cada uma por apenas uma família, também foram destruídas. Alguns camponeses dizem que os quase 322 mil litros de herbicida destruíram até mesmo suas colheitas de alimentos.
Esses camponeses não observaram nenhuma melhoria prometida pelo Plano Colômbia, um pacote de US$ 1,3 bilhão fornecido por Washington na luta contra a droga. Os planos de desenvolvimento alternativo para o sul da Colômbia, tais como a construção de fábricas para enlatar alimentos exportáveis, estão apenas na fase de projetos preliminares. As autoridades colombianas temem que se a ajuda não chegar rapidamente, a guerra não terminará e os camponeses voltarão a plantar coca por falta de alternativa.
Os aviões, protegidos por oficiais em terra e por helicópteros com soldados treinados nos Estados Unidos, fumigaram cerca de 25 mil hectares de coca em Putumayo desde o fim de 2000 até fevereiro deste ano. A fumigação logo foi interrompida e os aviões foram enviados a outras áreas enquanto tentava-se persuadir os camponeses a destruírem seus próprios cultivos de coca, disseram funcionários norte-americanos e colombianos. Os aviões devem voltar logo à região para destruir os quase 50 mil hectares restantes de plantações de coca.
Mas dias após a fumigação com glyphosate, herbicida fabricado pela empresa norte-americana Monsanto, os camponeses cortaram suas plantas para protegê-las. Os arbustos de coca, cuja cor verde brilhante contrasta com o resto da paisagem desbotada, representam o desdobramento mais recente de uma história na qual tentou-se conter o fluxo de drogas da América do Sul rumo aos Estados Unidos. Eles foram a saída para que os camponeses ganhassem a vida numa região carente tanto de infra-estrutura quanto de acesso aos mercados para os demais cultivos.
Jesús Zambrano, pai de três filhos, plantava brotos de coca perto da aldeia de San Vicente de Luzón. Crescerá, se Deus quiser, disse Zambrano. Não sei o que mais posso fazer. Não tenho coca para vender, nada para comer desde que fumigaram nem dinheiro para comprar comida. Há algumas semanas, as autoridades distribuíram mantimentos a algumas famílias, como a de Zambrano. Cada família recebeu cinco quilos de arroz, um litro de óleo, três latas de atum e meio quilo de café.
A polícia de Valle del Guamuez, em Putumayo, informou que as fumigações destruíram quase 7 mil hectares de plantações de alimentos e pastos, afetando mais de 4.200 pessoas.
O subsecretário de Estado norte-americano William Brownfield reconhece que a fumigação afetou plantações de alimentos, mas acusou os camponeses de plantarem coca entre outros cultivos lícitos para ocultá-la. O camponês que oculta intencionalmente ou tenta proteger o cultivo ilícito de coca ou da papoula não receberá apoio nem atenção se foram afetados, disse Brownfield.
Os organizadores da campanha dizem que sabiam de antemão que seria necessário voltar a fumigar alguns campos. Só uma parte da coca fumigada em Putumayo se regenerou, mas isso significa que será necessário repetir a fumigação antes do previsto.
A guerra antidrogas também deve levar em conta o perigo do efeito global. Quando é fechado o cerco em uma região, a droga aparece em outra.
O general Peter Pace, chefe de operações militares norte-americanas na América Latina, disse em audiência recente no Senado que foram detectados cultivos de coca e papoula no Equador. Mais ao sul, na Bolívia, um plano de erradicação da coca financiado pelos Estados Unidos obteve alguns êxitos iniciais, segundo as autoridades. Mas os agricultores da região de Chapare dizem que voltarão a cultivá-la em grande escala, já que os demais produtos não têm mercado.
Na Colômbia, as autoridades tentam convencer os camponeses que erradiquem a coca por vontade própria, em troca de ajuda. Cerca de 1,5 mil camponeses aceitaram erradicar a coca manualmente durante os próximos 12 meses, disse Wachtenheim. Mas isto ocorreu perto de Valle del Guamuez, tal alternativa nunca foi oferecida antes da fumigação.
O representante do presidente Andrés Pastrana em Putumayo, Gonzalo de Francisco, disse que serão construídas rodovias até Mocoá, capita del Putumayo, para levar os produtos da região aos mercados. Um dos planos consiste em construir uma processadora de polpa de frutas da região. Nenhuma produto por si só pode substituir a coca porque nenhum gera tanto dinheiro, disse de Francisco. Mas assim (os camponeses) não padecerão os problemas trazidos pela coca.


