As gigantes do tabaco combateram durante anos, por meio de uma estratégia bem ‘‘elaborada e financiada’’, os esforços da Organização Mundial de Saúde (OMS) para reduzir o consumo de tabaco no mundo, segundo um relatório oficial publicado na última quarta-feira.
Documentos internos provenientes das próprias companhias mostram como as empresas tentaram durante anos desacreditar e impedir o trabalho desta agência das Nações Unidas, conta o relatório.
‘‘As tentativas foram elaboradas, bem financiadas, sofisticadas e geralmente invisíveis’’, explica a introdução do documento.
O relatório foi resultado da investigação de um comitê internacional formado pela OMS, sob o comando do diretor do Escritório Federal Suíço de Saúde, Thomas Zeltner.
A equipe, ajudada por investigadores, reuniu e revisou documentos internos de várias companhias de tabaco, que eram confidenciais, mas passaram ao domínio público após uma série de processos contra a indústria do setor nos Estados Unidos.
O relatório é publicado a poucos meses de uma série de audiências públicas, em outubro que vem, onde as empresas se verão obrigadas a aceitar uma estratégia global para o controle do consumo de tabaco.
O documento mostra como as companhias ‘‘desenvolveram e mantiveram relações’’ profissionais com membros da OMS, consultores e conselheiros, para tentar influenciar as atividades da agência. ‘‘O pior é que as gigantes do tabaco chegaram a introduzir seus próprios consultores em cargos de responsabilidade na OMS, para que defendessem os objetivos das empresas’’, diz o relatório.
Os especialistas ressaltam como as empresas tentaram utilizar outras agências da ONU para conseguir informações sobre o programa de controle de tabaco da OMS.
A indústria do tabaco tentou, por exemplo, influenciar a Organização das Nações Unidas Para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e convencê-la a se pronunciar contra as políticas de controle da OMS, além de reafirmar a importância econômica do tabaco, sem levar em conta as consequências para a saúde.
Questionado sobre quanto as gigantes do tabaco teriam pago a funcionários da OMS, para que servissem aos seus propósitos, Zeltner disse que não era capaz de dar uma cifra. ‘‘A única coisa que sabemos, a partir dos documentos, é que houve um mínimo de dois milhões de dólares, mas não podemos dizer se (a cifra total) é muito maior’’, explicou.
A secretaria da OMS estudará a partir de agora se dará início a ‘‘ações administrativas ou legais’’ contra a indústria do tabaco, acrescentou Zeltner.
Diante da divulgação do relatório, a fabricante de cigarros Philips Morris International desmentiu as acusações de boicote à OMS.

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