Associated Press
De Newport, EUA
Duas semanas depois da queda do Boeing 767 da EgyptAir, que causou a morte de todos os seus 217 ocupantes, o mistério sobre a causa da tragédia resiste até mesmo à análise da segunda caixa-preta do avião.
O equipamento, com a gravação das vozes dos pilotos na cabine de comando, foi resgatado na madrugada de domingo e era considerada a principal chave para solucionar a maior parte das questões levantadas pela primeira caixa-preta, que registrou os dados do vôo.
Esses registros indicavam que o avião tinha iniciado uma descida controlada de aproximadamente 10 mil para 5 mil metros, após ter o piloto automático desconectado. Oito segundos depois, as duas turbinas do Boeing foram desligadas e o jato caiu no Oceano Atlântico, perto da costa de Massachusetts.
De posse desses dados e de outros relacionados à vida pessoal dos dois pilotos – um deles passava por dificuldades financeiras, tinha feito um vultoso seguro de vida e mostrava-se surpreendentemente tenso antes do vôo –, as autoridades da Junta Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB, pelas iniciais em inglês) investigavam a hipótese de um possível suicídio.
Mas os 28 primeiros minutos de gravação contidos na fita analisada pelo organismo nesta segunda-feira não confirmam essa hipótese, embora não a exclua totalmente. ‘‘Os dois pilotos falam como bons amigos’’, diz o presidente da NTSB, Jim Hall, ao divulgar o resultado das primeiras análises.
‘‘Num dado momento, algo acontece; um alarme soa e os dois tentam buscar uma solução. Encontram-se com um problema que se vai tornando cada vez mais grave.
Até que a fita se detém.’’
As duas principais dúvidas ainda dizem respeito aos motivos que causaram o desligamento do piloto automático e o que teria levado ao corte dos dois motores – o que tem, necessariamente, de ser feito manualmente. As novas revelações também puseram em xeque a tese de sequestro, defendida extra-oficialmente por alguns agentes do FBI (a polícia federal norte-americana). Antes do desligamento do piloto automático, o vôo transcorria normalmente.
Hall obteve ontem da Casa Branca o poder de impor o silêncio a todos os organismos federais envolvidos na investigação da tragédia com o avião da EgyptAir. Assim, deixou claro que só ele tem a prerrogativa de fazer declarações sobre o caso. O chefe do FBI de Boston, Barry Mawn, limitou-se a declarar que mais de 250 agentes federais ouviram centenas de pessoas sobre o caso, mas não encontraram nenhum indício de que algum delito foi cometido.
Enormes interesses estão em jogo. Caso fique comprovada a existência de um erro dos pilotos, a EgyptAir deve ser condenada a pagar milhões de dólares em indenizações. Se a falha tiver sido mecânica, será a norte-americana Boeing a ré de ações indenizatórias.
O ex-piloto e atual consultor de seguradoras para desastres aéreos Barry Schiff sustentou que os dados das duas caixas-pretas levam os investigadores a pensar mais em uma falha humana do que mecânica. De todo modo, os funcionários da NTSB consideram ‘‘estranhas’’ as manobras feitas pelos pilotos nos últimos minutos do vôo.

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