A última estimativa sobre o colégio eleitoral, feita ontem pela agência Reuters, menos de 24 horas antes do início da votação na mais disputada eleição presidencial dos EUA em 40 anos, colocou o governador do Texas, George W. Bush, a apenas 35 votos da maioria de 270 que precisa atingir para eleger-se. Mas as pesquisas sobre a tendência da votação popular mostravam seu rival, o vice-presidente Albert Gore, em ascensão, apenas 1 ponto ou 2 pontos atrás de Bush e em condições de prevalecer em estados importantes como a Flórida e Pensilvânia, que podem dar-lhe a vitória, de virada.
Com a disputa mais apertada e menos previsível do que nunca, o pequeno Arkansas, o estado do presidente Bill Clinton, que tem apenas seis votos no colégio eleitoral, passou a figurar de forma destacada na equação que pode dar o triunfo a um ou a outro candidato.
O presidente Bill Clinton, que Gore manteve afastado da campanha por medo de ter sua imagem de marido fiel e bom pai de família contaminada pelo escândalo Lewinsky, voltou a Arkansas no domingo para fazer campanha por seu vice. ‘‘É hora de mobilizar as tropas e produzir os eleitores’’, disse ele aos militantes de seu partido, lembrando que o número de votantes poderá ser o dado decisivo.
Em tese, uma maior presença de eleitores nos estados onde a briga permanecia indefinida favorece Gore, pois os analistas políticos acreditam que o fator entusiasmo está mais para Bush. Clinton, que ganhou confortavelmente duas eleições presidenciais e talvez seja o melhor estrategista político do país resumiu assim a situação. ‘‘Vencerá quem tiver mais vontade de vencer.’’
Além do presidente, os americanos elegerão 435 deputados, 35 senadores, 11 governadores, milhares de prefeitos, vereadores, deputados estaduais, xerifes, juízes e membros de conselhos educacionais distritais. Em 42 estados, eles se pronunciarão também sobre os mais diferentes assuntos – da legalização da eutanásia e da maconha à privatização parcial dos fundos destinados hoje às escolas públicas – em mais de 200 referendos.
A disputa pelo controle da Câmara dos Representantes e do Senado, hoje em poder dos republicanos, é tão imprevisível quanto a briga pela presidência.
Na tarde de hoje, as pesquisas indicavam que o vice-presidente provavelmente vencerá os 11 votos eleitorais do estado de Washington, neutralizando a ameaça representada pelo candidato do Partido Verde, Ralph Nader, que não tem chances de ganhar mas poderia tirar votos suficientes de Gore para dar a vitória a Bush. O impacto de Nader na campanha parece ter diminuído. Empenhado em chegar aos 5% da votação popular que abrirão o acesso a seu partido aos fundos federais de eleições, o candidato verde decidiu encerrar sua campanha num comício em Nova York, que pode ajudá-lo a alcançar seu objetivo mas onde não representa problema para seu rival democrata.
Dos aproximadamente 200 milhões de americanos maiores de 18 anos, espera-se que metade exercerão o direito do voto. Com a disputa apertada como está, isso significa que o quadragésimo terceiro presidente da história do país será escolhido com o apoio de apenas 25% das pessoas habilitadas a votar. A campanha foi a mais cara da história dos EUA e provavelmente redefinirá vários parâmetros de análise. Mudanças demográficas, o maior acesso à informação, o desencanto pela política e a falta de entusiasmo da maioria dos eleitores por Gore ou Bush combinaram-se para produzir uma situação na qual até os instrumentos de análises e previsão do comportamento do eleitorado estão em discussão.
O fato, por exemplo, de apenas 35% das pessoas procuradas por empresas que fazem pesquisas de opinião terem demonstrado interesse em responder, em comparação com quase 70% quatro anos atrás, pôs em dúvida a credibilidade das sondagens. E é possível que nem mesmo as entrevistas de boca-de-urna, feitas depois que os eleitores votam e usadas pelas redes de televisão para projetar os resultados, ajudem a revelar os resultados. Larry King, da rede de televisão CNN, e alguns comentaristas de peso estão pedindo às pessoas que mintam aos entrevistadores nos chamados ‘‘exit polls’’ em protesto contra a manipulação da opinião pública que os políticos e as empresas fazem com base nas pesquisas.
O cientista político Sandy Maisel, do Colby College, em Maine, um dos estados onde a eleição continuava ontem indefinida, resumiu com franqueza o clima de suspense que permanecia, apenas horas antes do início da votação, na Costa Leste. ‘‘Quem disser que sabe o que vai acontecer está inventando’’, afirmou ele. ‘‘Teremos uma longa noite amanhã.’’

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