George Will, um colunista com sólidas credenciais conservadoras, escreveu esta semana na revista Newsweek que, relativamente ao estado de ânimo dos norte-americanos e ao conteúdo do conservadorismo nos Estados Unidos em diferentes épocas, George W. Bush e Dick Cheney talvez formem ‘‘a chapa presidencial mais conservadora dos republicanos’’ desde 1964, quando o então senador de Arizona, Barry Goldwater, o líder da ala radical do partido, e o deputado Bill Miller, de Nova York, disputaram (e perderam) a presidência.
Mas é difícil detectar qualquer sinal do direitismo da dupla Bush-Cheney na convenção dos republicanos.
Os temas tradicionais dos conservadores norte-americanos, como a denúncia do aborto legal, da violência e do crime, da intrusão excessiva do governo na vida dos cidadãos e das empresas deram lugar a imagens e discursos sobre o imperativo da inclusão racial, a educação e o bem-estar social. O tema da primeira noite foram as crianças.
Na noite de abertura, o momento mais eloquente foi de autocrítica. Conclamando seus correligionários a voltar a ser ‘‘o partido de Abraham Lincoln’’, o ex-comandante do estado-maior conjunto das forças armadas, general Colin Powell – primeiro negro a chegar ao topo da hierarquia militar americana – repreendeu os republicanos por não perderem ‘‘nenhuma oportunidade para condenar os programas de ação afirmativa’’ para crianças negras mas ‘‘não dão um pio’’ sobre a ação afirmativa para lobistas que agem em nome de interesses especiais.
‘‘A estratégia deles é falar em compaixão e tudo mais’’, comentou ontem o presidente Bill Clinton. ‘‘É uma estratégia brilhante; é um pacote bonito e eles esperam que se o amarrarem apertado o suficiente as pessoas não abrirão o pacote antes do Natal’’, acrescentou.
Bush, que chegará hoje à Filadélfia, respondeu que o fato de Clinton encontrar tempo para fazer análise sobre a convenção do partido adversário é um sinal de seu desespero em ver Albert Gore eleito, pois só assim ele conseguirá reivindicar um legado político.
Os discursos de ontem, sobre defesa e segurança nacional, foram mais incisivos. Os dois principais oradores da noite, o senador John McCain, que disputou a indicação presidencial com Bush, e o ex-general Norman Schwarzkopf, o comandante das forças na Guerra do Golfo, criticaram a perda de liderança mundial dos Estados Unidos durante a administração Clinton-Gore.
O tom mais duro desses discursos não afetou a estratégia por trás da coreografia da convenção republicana. Trata-se de apresentar a mensagem positiva e sorridente que os norte-americanos querem ouvir nesses tempos de prosperidade e remover alvos para os democratas na reta final da campanha. A polícia teve trabalho ontem para conter os ativistas que protestaram contra a convenção.

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