Washington - Os Estados Unidos divulgaram ontem as revelações de Richard Clarke, um ex-encarregado da luta antiterrorista da Casa Branca, que acusa o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de negligência ante a ameaça simbolizada pela rede Al-Qaeda antes dos atentados de 11 de setembro, enquanto Bush está sendo criticado por ter se enganado de alvo, ao atacar o Iraque.
  A menos de oito meses da eleição presidencial do dia 2 de novembro, as acusações de Clarke, que se demitiu do Conselho Nacional de Segurança (NSC) em fevereiro de 2003, desferem um golpe fatal à estratégia de Bush para defender a guerra iniciada há um ano contra o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein. Para se defender destas acusações, a Casa Branca decidiu colocar a polêmica no centro da campanha eleitoral.
  ‘‘Se as preocupações de Clarke sobre os rumos da guerra contra o terrorismo eram tão grandes, por que ele esperou o início da campanha presidencial para publicar um livro?’’, perguntou ontem o porta-voz da presidência americana Scott McClellan.
  McClellan qualificou durante uma entrevista coletiva à imprensa as acusações de Clarke de ‘‘profundamente irresponsáveis e falsas’’. Na opinião da Casa Branca, o caso não passa de uma manipulação dos democratas para enfraquecer o presidente republicano.
  ‘‘Sabemos que o melhor amigo de Clarke é um dos principais conselheiros do candidato democrata John Kerry em matéria de política externa’’, afirmou McClellan. ‘‘Está claro que, neste caso, se trata mais de política e de propaganda que de estratégia’’ para combater o terrorismo, criticou o porta-voz.
  A carreira de Clarke é impressionante. Ele integrou a equipe do ex-presidente democrata Bill Clinton, mas também a dos republicanos George Bush pai e de Ronald Reagan. Em 1998, Clinton designou Clarke para o comando da luta antiterrorista, e George W. Bush o manteve nesta função dentro do Conselho Nacional de Segurança (NSC).
  As revelações de Clarke acontecem quando Bush já está sendo acusado pelos democratas e por diversos países aliados dos Estados Unidos de ter se enganado ao invadir o Iraque um ano atrás, em nome da guerra contra o terrorismo. No seu livro, Clarke acusa o governo de Bush de ter realizado um ‘‘péssimo trabalho’’ na guerra contra o terrorismo, e de ter ignorado advertências formuladas antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, que mataram quase 3.000 pessoas em Nova York e Washington.
  Clarke considera ‘‘um escândalo o fato de o presidente explicar durante sua campanha para a reeleição ter promovido grandes ações contra o terrorismo, quando na verdade ele ignorou este problema’’. No dia seguinte do 11 de setembro, quando já estava claro o envolvimento da rede Al-Qaeda nos atentados, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld afirmou: ‘‘Temos de bombardear o Iraque’’, explica Clarke no seu livro ‘‘Against All Ennemies’’ (Contra Todos os Inimigos).
  A conselheira do NSC, Condoleezza Rice, se defendeu afirmando que ‘‘a equipe da segurança nacional desenvolveu uma estratégia para eliminar a Al-Qaeda durante a primavera e o verão boreal de 2001’’.

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