Bush e Gore queimam os últimos cartuchos
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segunda-feira, 06 de novembro de 2000
Paulo Sotero Agência Estado De Washington 
As 48 horas finais da mais acirrada disputa pela presidência dos Estados Unidos em quase meio século, nas eleições de amanhã, mostravam ontem o governador do Texas George W. Bush confiante na vitória em comícios na Flórida, um estado onde normalmente deveria vencer mas está atrás nas pesquisas, e o vice-presidente Al Gore implorando por votos em seu próprio estado natal de Tennessee, onde não pode perder mas a vantagem é de seu rival.
Com a maioria das pesquisas de opinião apontando entre 1 ponto e 5 pontos de margem a favor de Bush, mas algumas delas indicando também crescimento de Gore, e a briga indefinida em até uma dúzia de estados-chave na composição do colégio eleitoral que define o resultado, os dois contendores planejavam concentrar as horas finais de suas campanhas na Pensilvânia e nos estados do Meio-Oeste para tentar atrair para seu campo os 6% a 8% de indecisos ou, no caso de Gore, os adeptos do candidato do Partido Verde, Ralph Nader, o qual, com 4% a 5% da preferência nacional, pode tirar-lhe votos suficientes em estados como Minnesota, Washington, Wisconsin e Maine.
Num esforço para evitar que isso ocorra mas preservar, ao mesmo tempo, as chances de Nader de chegar aos 5% da votação popular, que o habilitará a receber fundos federais na próxima campanha presidencial, militantes da ala esquerda do Partido Democrata iniciaram uma operação nacional de compensação eleitoral pela internet. Eles oferecem votos democratas para o candidato do Partido Verde em estados já garantidos por Gore em troca do compromisso dos adeptos de Nader de votar pelo vice-presidente nos estados onde podem dar a margem de vitória a Bush.
A dificuldade de projetar com segurança o desfecho da batalha pela presidência era sublinhada ontem pelos indícios de uma possível inversão na expectativa de retomada da Câmara de Representantes pelos democratas e manutenção do mando republicano no Senado, mantida até agora por muitos analistas. Desdobramentos inesperados nas últimas 72 horas indicavam a possibilidade de ocorrer exatamente o oposto.
O tom das campanhas republicana e democrata, o ânimo dos candidatos, as tendências detectadas pelas sondagens nacionais de opinião, a leitura atenta dos grandes jornais e as previsões dos comentaristas que ousaram arriscar um palpite sugeriam uma probabilidade maior de Bush vencer, com uma apertada maioria conservadora no Congresso, do que Gore ser eleito e os democratas reconquistarem o controle do Capitólio. Mas cenários intermediários, com os poderes executivo e legislativo divididos entre os dois partidos, pareciam igualmente plausíveis.
Aliviado com resultados de pesquisas segundo as quais apenas 17% dos eleitores consideraram importante a revelação de que ele foi preso por dirigir bêbado 24 anos atrás e escondeu o fato, Bush retomou sua campanha no fim de semana com vigor redobrado. Seus assessores acham até que o episódio pode ajudá-lo junto a republicanos que não pretendiam votar mas que agora poderão ir às urnas por não aprovarem a tentativa dos democratas de usar politicamente uma questão trivial nos momentos finais da campanha. A estratégia de Bush é a de projetar a imagem de autoconfiança do competidor que chega à reta final com pique de vencedor.
Empenhado em mobilizar o apoio do eleitorado negro do oeste do Tennessee, do qual depende para superar a vantagem de Bush, Gore chegou perto de mostrar sinais de desepero ao apresentar a eleição como uma luta do bem contra o mal num café da manhã, no sábado, com pastores protestantes e outros líderes religioso em Memphis. Ontem pela manhã, ao iniciar mais um giro pela Pensilvânia, Minnesota e Wisconsin, o vice-presidente mostrou-se confiante na vitória, em conversa com repórteres. Vamos vencer, pode escrever, vamos vencer, disse ele.


