As 48 horas finais da mais acirrada disputa pela presidência dos Estados Unidos em quase meio século, nas eleições de amanhã, mostravam ontem o governador do Texas George W. Bush confiante na vitória em comícios na Flórida, um estado onde normalmente deveria vencer mas está atrás nas pesquisas, e o vice-presidente Al Gore implorando por votos em seu próprio estado natal de Tennessee, onde não pode perder mas a vantagem é de seu rival.
Com a maioria das pesquisas de opinião apontando entre 1 ponto e 5 pontos de margem a favor de Bush, mas algumas delas indicando também crescimento de Gore, e a briga indefinida em até uma dúzia de estados-chave na composição do colégio eleitoral que define o resultado, os dois contendores planejavam concentrar as horas finais de suas campanhas na Pensilvânia e nos estados do Meio-Oeste para tentar atrair para seu campo os 6% a 8% de indecisos – ou, no caso de Gore, os adeptos do candidato do Partido Verde, Ralph Nader, o qual, com 4% a 5% da preferência nacional, pode tirar-lhe votos suficientes em estados como Minnesota, Washington, Wisconsin e Maine.
Num esforço para evitar que isso ocorra mas preservar, ao mesmo tempo, as chances de Nader de chegar aos 5% da votação popular, que o habilitará a receber fundos federais na próxima campanha presidencial, militantes da ala esquerda do Partido Democrata iniciaram uma operação nacional de compensação eleitoral pela internet. Eles oferecem votos democratas para o candidato do Partido Verde em estados já garantidos por Gore em troca do compromisso dos adeptos de Nader de votar pelo vice-presidente nos estados onde podem dar a margem de vitória a Bush.
A dificuldade de projetar com segurança o desfecho da batalha pela presidência era sublinhada ontem pelos indícios de uma possível inversão na expectativa de retomada da Câmara de Representantes pelos democratas e manutenção do mando republicano no Senado, mantida até agora por muitos analistas. Desdobramentos inesperados nas últimas 72 horas indicavam a possibilidade de ocorrer exatamente o oposto.
O tom das campanhas republicana e democrata, o ânimo dos candidatos, as tendências detectadas pelas sondagens nacionais de opinião, a leitura atenta dos grandes jornais e as previsões dos comentaristas que ousaram arriscar um palpite sugeriam uma probabilidade maior de Bush vencer, com uma apertada maioria conservadora no Congresso, do que Gore ser eleito e os democratas reconquistarem o controle do Capitólio. Mas cenários intermediários, com os poderes executivo e legislativo divididos entre os dois partidos, pareciam igualmente plausíveis.
Aliviado com resultados de pesquisas segundo as quais apenas 17% dos eleitores consideraram importante a revelação de que ele foi preso por dirigir bêbado 24 anos atrás e escondeu o fato, Bush retomou sua campanha no fim de semana com vigor redobrado. Seus assessores acham até que o episódio pode ajudá-lo junto a republicanos que não pretendiam votar mas que agora poderão ir às urnas por não aprovarem a tentativa dos democratas de usar politicamente uma questão trivial nos momentos finais da campanha. A estratégia de Bush é a de projetar a imagem de autoconfiança do competidor que chega à reta final com pique de vencedor.
Empenhado em mobilizar o apoio do eleitorado negro do oeste do Tennessee, do qual depende para superar a vantagem de Bush, Gore chegou perto de mostrar sinais de desepero ao apresentar a eleição como uma ‘‘luta do bem contra o mal’’ num café da manhã, no sábado, com pastores protestantes e outros líderes religioso em Memphis. Ontem pela manhã, ao iniciar mais um giro pela Pensilvânia, Minnesota e Wisconsin, o vice-presidente mostrou-se confiante na vitória, em conversa com repórteres. ‘‘Vamos vencer, pode escrever, vamos vencer’’, disse ele.

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