Buenos Aires - Numa tarde fria da semana em que foram registradas as mais baixas temperaturas deste inverno na Argentina, um grupo de jovens conversava no lugar onde um raio de sol iluminava uma parte da praça San Martín, em San Justo, capital do distrito de La Matanza, na Grande Buenos Aires. Essa região é mais conhecida como "conurbano" bonaerense, uma área com 13 milhões de habitantes em seus 24 distritos, em geral de classe média e média baixa, mas que inclui cidades prósperas, com atividade econômica própria e universidades.

Inflação é uma das maiores preocupações dos eleitores de localidades da Grande Buenos Aires
Inflação é uma das maiores preocupações dos eleitores de localidades da Grande Buenos Aires | Foto: Shutterstock

Os estudantes debatiam o futuro da Província de Buenos Aires, cuja capital é La Plata. "Magario é melhor do que Vidal", disse Alejandro, 22, referindo-se à peronista Verónica Magario, prefeita de La Matanza e candidata a vice-governadora pela chapa kirchnerista, e à atual governadora, María Eugenia Vidal, do partido de Macri (PRO).

"Sim, mas Magario é candidata a vice, o candidato mesmo é [Axel] Kicillof, que afundou a gente na crise", responde Natalia, 24, referindo-se ao ex-ministro da economia de Cristina Kirchner. "Não foi Kicillof, foram os ajustes de Macri", entra na conversa Nahuel, 23, refletindo a polarização entre macristas e kirchneristas que vem se impondo nas eleições de outubro.

Natalia, estudante de direito, abandona a discussão com os colegas e diz à reportagem: "Nunca na Argentina demos bola para quem é o vice. Nesta eleição está tudo diferente. Os kirchneristas vão votar em Alberto Fernández achando que quem governará é Cristina, e em Kicillof aqui porque acham que quem vai mandar é a Magario. Mas não caio nessa. Vice não serve pra nada".

A disputa entre Kicillof e a atual governadora está acirrada. Levantamento da Query Argentina y M&R Associados divulgado no início do mês mostra a governadora com 41,5% das intenções de voto, e o kirchnerista, com 41%. As pesquisas refletem a competitividade da eleição nacional, em que os dois principais candidatos à Presidência estão separados por uma diferença entre 0,5% e 4%. Ter um bom desempenho na região, o maior reduto com 40% dos votantes de todo o país, é essencial.

Alguns quarteirões perto dali, a discussão é resumida pelo comerciante José Moncada, 54: "Aqui votamos em Cristina para presidente e em Cristina para governadora". A reportagem lembra que ela não é candidata a nenhum dos cargos. Ele ri. La Matanza, com 1,7 milhão de habitantes, é um reduto peronista histórico.

O cientista político Rodrigo Martínez, da consultora Isonomia, uma das mais confiáveis na Argentina, diz que tem sido assim mesmo. "Em muitos lugares do conurbano, temos recebido essa resposta, que as pessoas estão votando na Cristina seja qual for o cargo." Em outros distritos, porém, a hegemonia é menos clara. Até porque, nas eleições de 2015, uma grande surpresa ocorreu na Província onde o peronismo costumava ser quase hegemônico.

A votação na então oposicionista Vidal foi tão alta que fez com que, em vários distritos, jovens políticos da aliança de Macri, o Cambiemos, destronassem clãs peronistas que governaram há anos. Hoje, a imagem da governadora está desgastada, mas sua aprovação ainda ronda 40%.

A maioria das reclamações ouvidas nas localidades da Grande Buenos Aires se referia à inflação, que acumula 57% nos últimos 12 meses. Nos distritos de classe média baixa ou ainda mais pobres da região estão parte da população que foi mais afetada pela política nacional de cortes de subsídios a transporte, luz, água e gás promovida por Macri desde 2015. "Como vou comer tendo que pagar 600 pesos (cerca de R$ 55) de luz, se antes pagava 25?", diz a costureira Lucy Salgado, 34. Ela, porém, não culpa o atual governo. "Macri e Vidal estão fazendo o que podem com a economia destruída pela corrupção que os kirchneristas deixaram."

Todos reclamam da economia. A diferença é que há os que culpam o atual governo pelo ajuste, e os que culpam o anterior, kirchnerista, por ter causado a má situação que Macri e Vidal teriam herdado.

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