Brasileiro em Miami transforma apartamento em fábrica de máscaras para doação


MARINA DIAS
MARINA DIAS

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O primeiro cliente de Ricardo Mola sumiu depois de fazer o pedido: uma caixa de máscaras de plástico para proteger contra o novo coronavírus.

Ainda era março, e as regras de distanciamento social nos EUA estavam no início. Mola, um brasileiro que vive em Miami há pouco mais de um ano, tinha chamado a atenção nas redes sociais publicando fotos sobre sua obsessão por impressoras 3D.



Conforme o vírus avançava, um americano lhe perguntou se era possível usar as máquinas na produção de máscaras para distribuir a acompanhantes de mulheres que dão à luz em meio à pandemia.

"Respondi que poderia fazer, mas ele nunca mais me retornou. Comecei a produzir por causa desse cara e não entreguei nada para ele", conta Mola.

Outras 450 pessoas, porém, já receberam as doações do brasileiro. E pelo menos mais 120 devem ser contempladas nos próximos dias.

Com três impressoras no escritório improvisado em seu apartamento, Mola tem feito 45 máscaras por dia para doar a hospitais e clínicas que sofrem com a falta de insumos médicos no combate ao coronavírus.

Abandonado pelo cliente número zero, o brasileiro decidiu telefonar para hospitais da Flórida e perguntar quem precisava de máscaras.

Já na segunda tentativa ouviu resposta positiva e entregou 120 unidades ao Memorial Regional Hospital, em Hollywood.

"Estávamos no meio de abril e foi a primeira vez que saí de casa em quase 40 dias. Vi a loucura que estava a porta de um hospital. Era um cenário de guerra."

Dos mais de 1,6 milhão de casos confirmados de Covid-19 nos EUA, 51 mil diagnósticos são registrados na Flórida, com mais de 2.000 mortes. Ao todo, quase 98 mil pessoas já morreram no país por causa da doença.

Depois de Hollywood, Mola entregou outras 50 máscaras para o hospital Monte Sinai, em Miami Beach, e mais 150 em centros médicos de Boca Raton.

Duas levas, uma de 30 e outra de 100 itens, foram enviadas por Mola para a República Dominicana, após um pedido que, segundo ele, surgiu do boca a boca entre os contemplados.

Além de suas redes sociais, o brasileiro diz que não tem como fazer propaganda do serviço. Nas caixas em que envia o material, porém, acrescenta uma instrução com cinco passos para a montagem das máscaras, junto com seu nome, telefone e perfil no Instagram.

E, assim, tem sido procurado por diversos profissionais, principalmente de hospitais e clínicas da Flórida.

"Minhas doações são prioritariamente aos agentes de saúde. Para o pessoal que fica na linha de frente, esse material é ideal."

A estrutura das máscaras produzidas por Mola é bastante simples: um pedaço colorido de plástico biodegradável é modelado pela impressora como uma espécie de tiara, na qual é presa uma tela de acetato, plástico resistente, que cobre praticamente o rosto inteiro de quem a utiliza.

A fábrica que montou em casa chamou a atenção de uma médica que atendeu Mola no mês passado, em um exemplo da busca desesperada por insumos que acomete diversos profissionais em hospitais nos EUA.

O brasileiro de 47 anos precisava renovar a receita de um remédio e acabou a consulta com uma encomenda de cem máscaras saídas de suas impressoras 3D.

"Ela pediu 3.000 para o hospital todo. Eu disse que poderia entregar 100, e ela quis mesmo assim."

Cada máquina de Mola produz apenas duas máscaras por hora, mas o custo é baixo, menos de US$ 1 (R$ 5,70) por unidade.

"Essas impressoras não foram feitas para produção em série, são para fazer protótipos", explica o brasileiro, que já precisou fazer pelo menos duas manutenções desde que começou as doações.

Funcionário do setor de vendas de um banco americano, o brasileiro se espreme entre o barulho das impressoras enquanto cumpre as oito horas diárias de trabalho remoto.

"Elas ficam ligadas o tempo todo, só assim para eu conseguir fazer 45 por dia."

Mola se mudou para Miami em abril do ano passado com a mulher, Paula Buzaid, e o filho Henrique, 12.

Ele conta que montou sozinho a primeira impressora 3D, comprada em 2014 ainda no Brasil. Em seguida, vieram outras sete, mas só conseguiu carregar duas delas com a mudança para os EUA.



Com o projeto das máscaras, acrescentou mais uma ao estoque pessoal e diz estar decidido a manter o ritmo. Questionado sobre até quando vai durar sua produção, Mola afirma: "Até quando precisar".​

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