Em processo inverso, no Brasil, considerado um país católico, muitos cristãos ainda aplacam antigas divindades tribais trazidas da África pelos escravos há quatro séculos – embora sob nomes diferentes. Assim, na Bahia, eles podem venerar São Jorge, matador de dragões, na missa pela manhã e, à noite, invocá-lo como Oxossi, padroeiro da caça, uma divindade africana.
‘‘Eu não creio que tenha havido um momento mais dramático para tentar definir Cristo desde o quarto século, quando foi convocado o Concílio de Nicéia, para decidir o que era e o que não era ortodoxo’’, disse Martin Palmer, diretor da Consultoria Internacional sobre Religião, Educação e Cultura, em Manchester, Inglaterra.
Desde seus primórdios, o cristianismo foi uma religião migratória, buscando implantar o Evangelho no centro de qualquer cultura estrangeira onde seus missionários pudessem penetrar. Neste processo, o Evangelho não apenas foi transplantado, mas também, repetidas vezes, interpretado.
Mas, em suas formas desenvolvidas (especialmente a Igreja Católica Romana), o cristianismo ocidental também enfatizou a importância da manutenção da ortodoxia doutrinal. Agora que o cristianismo está se tornando verdadeiramente uma religião global, o problema é decidir quais são os elementos do pensamento e da cultura ocidentais essenciais à fé. No final do ano passado, o Vaticano publicou um documento altamente controvertido destinado a suprimir o que o papa considera atitudes de compromisso em relação a outras religiões mundiais por parte de alguns bispos e teólogos asiáticos.
Em vez de exigir que os indianos convertidos aceitem Jesus tal como os ocidentais o concebem, alguns missionários oferecem hoje um Cristo condizente com as tradições espirituais nativas. Desta forma, em muitas igrejas indianas, bem como em várias ‘‘ashrams’’ cristãs (comunidades residenciais religiosas indianas), os sacerdotes católicos adotaram as vestes e os rituais da maioria hindu.
Para o padre Karakunnel, o mais importante é que os próprios cristãos asiáticos ‘‘devem ser testemunhas de Cristo através da libertação dos pobres e humilhados’’. Foi exatamente isso o que fez a falecida Madre Teresa de Calcutá: deixar que Cristo fale através de suas próprias obras de misericórdia, em vez de fazer proselitismo entre os outros.

mockup