Marcio Aith
Agência Folha
De Washington
A ascensão do ex-astro de basquete Bill Bradley nas pesquisas eleitorais está provocando uma reviravolta na campanha do vice-presidente Al Gore à sucessão presidencial dos EUA de 2000.
Gore era desde 1992 a estrela única no cenário democrata para suceder ao presidente Bill Clinton. Agora, vê-se obrigado a dividir com Bradley as intenções de voto e a atenção dos grandes financiadores de campanhas. Bradley conseguiu arrecadar US$ 11,7 milhões nos primeiros seis meses de campanha e, embora ainda esteja atrás de Gore nas pesquisas, sai-se melhor que o vice de Bill Clinton num eventual embate com o provável candidato da oposição, o governador do Texas, George W. Bush.
Números divulgados na última terça-feira pela agência de notícias ‘‘Reuters’’ mostram que Bush ganharia de Gore com 50% das preferências contra 39%. Diante de Bradley, a liderança de Bush caiu bastante (47% a 42%, o que caracteriza empate técnico). A tendência é confirmada pela pesquisa CNN/Gallup/USA Today, segundo a qual a diferença entre Bush e Gore (15 pontos percentuais) é maior que a distância entre Bush e Bradley (11 pontos percentuais).
Gore, taxado de candidato artificial e pouco empolgante, mudou completamente sua estratégia para conter o fenômeno Bradley. Transferiu a sede de sua campanha de Washington para Nashville, em seu Estado natal do Tennessee, para distanciar-se da burocracia e aproximar-se dos eleitores. Deixou de ler discursos e mudou o modo de vestir-se, para transmitir uma imagem menos ‘‘robótica , e, numa contratação polêmica, chamou a escritora feminista Naomi Wolf para ajudá-lo a cativar o voto feminino, essencial nas duas eleições de Clinton, em 1992 e 1996.
Os livros de Wolf tratam de temas picantes e são vistos de forma controversa no próprio movimento feminista. Em seu último, ‘‘Promiscuidades’’, ela argumenta que as escolas deveriam ensinar alunos a se masturbarem porque essa atividade é mais realista, no mundo atual, que a abstinência sexual.
Christopher Caldwell, analista político, acha essa polêmica saudável para Gore, pois ao menos chama a atenção do público para sua campanha. No entanto, considera que, mesmo assim, a ‘‘marca Gore’’, caracterizada pela apatia, persiste. ‘‘Só ele conseguiria arranjar um escândalo sexual sem sexo.’’
Tendo em vista esse novo cenário no campo democrata, Gore viu-se obrigado a gastar dinheiro e parte do tempo de sua campanha garantindo a liderança dentro de seu próprio partido, o Democrata. Calcula-se que, nesse ritmo, Gore irá consumir todo o dinheiro que arrecadou (US$ 19,5 milhões) até meados de abril do próximo ano, antes mesmo da nomeação do candidato democrata.
Gore gasta os recursos que arrecada três vezes mais rápido que Bradley. Ao contrário de Gore, a campanha de Bradley está centrada em propagandas na Internet e no apoio da moderna e milionária elite empresarial do ‘‘Silicon Valley’’ (Vale do Silício), região da Califórnia que hospeda a geração moderna e bilionária de empresários ligados à tecnologia que está mudando as feições da economia e da sociedade dos EUA.
Ex-astro da NBA pelo Knicks, de Nova York, e senador de Nova Jersey por 18 anos, Bradley conseguiu transmitir à população uma imagem de autêntico e independente.

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