La Paz - A chegada do indígena Evo Morales à presidência da Bolívia anuncia uma virada do país para a esquerda, ao mesmo tempo em que desperta imensa esperança entre a população, a mais pobre do mundo andino, em meio aos desafios que terá de enfrentar.
O governo que assumirá em 22 de janeiro deverá lidar rapidamente com uma série de temas sensíveis: ameaças de separatismo na rica província e capital econômica Santa Cruz (leste), a nacionalização do gás e as relações tumultuadas entre Morales e os Estados Unidos.
O candidato e líder do Movimento para o Socialismo (MAS) Evo Morales obteve uma surpreendente vitória no domingo já no primeiro turno ao ultrapassar o teto de 51% dos votos, segundo as últimas previsões. Sua eleição deve ser confirmada hoje pelo Tribunal Eleitoral.
A virada à esquerda da Bolívia vai fortalecer a frente dos países progressistas da América do Sul formada por Brasil, Argentina, Venezuela e Uruguai.
Com um amplo apoio popular que vai muito além das populações camponesas e andinas do Altiplano - seus eleitores tradicionais - Morales suscita grandes esperanças entre os nove milhões de bolivianos, sobretudo entre os mais pobres.
Seis de cada dez bolivianos vivem abaixo da linha de pobreza. ''Evo conta com uma grande vantagem: ele obteve uma maioria de votos sem precedentes no país, o que lhe confere uma grande legitimidade'', destacou o analista Guido Riveros.
Morales ''tem de mudar o modelo político e econômico, mas é complicado fazer uma revolução nessas circunstâncias e de forma legal'', comentou nesta segunda-feira Cayetano Llobet, um analista do jornal La Razón.
O apoio de parte da classe média boliviana a Morales se deve à presença na chapa como vice-presidente de Alvaro Garcia, um intelectual branco do MAS que exercerá o papel de principal conselheiro.
Apesar de Morales ter ultrapassado a maioria absoluta na eleição presidencial, o MAS obteve apenas metade das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, o que deixa prever dificuldades para aplicar futuras reformas.
Os novos dirigentes terão de corresponder às expectativas dos diversos sindicatos camponeses e das associações dos plantadores de coca que integram ou apoiaram o MAS.
Outro tema sensível aguarda Evo Morales: a renegociação com as companhias petrolíferas estrangeiras. O gás boliviano é cobiçado por vários países vizinhos, como Argentina, Chile e Brasil.
''A nacionalização dos hidrocarbonetos será crucial na relação com os Estados Unidos, que resiste a essa política de defesa dos interesses estratégicos'', explicou o analista Juan Ramon Quintana.
O futuro governo também deverá lidar com as ameaças de separação do país entre o oeste andino e pobre e as regiões do leste que possuem o gás e as riquezas agrícolas da Bolívia.
Outra questão sensível: as relações com os Estados Unidos, país com o qual o ex-plantador de coca mantém relações detestáveis. Morales, que prega a plantação livre da coca, também é muito próximo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e do líder cubano Fidel Castro.
No entanto, o analista Guido Riveros se mostrou otimista sobre esse ponto, apesar das recentes declarações antiimperalistas de Morales: ''Uma coisa é ser opositor, outra é governar'', sentenciou.

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