Bolívia espera resposta das empresas petroleiras
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de maio de 2006
France Presse 
La Paz - O governo do presidente boliviano, Evo Morales, aguarda com expectativa a resposta das multinacionais, constrangidas a renegociar os contratos ou sair do país. As instalações petrolíferas amanheceram ontem ocupadas por militares depois do anúncio, na véspera, da nacionalização dos hidrocarbonetos (petróleo e gás).
O governo se mostrou confiante de que as empresas de petróleo vão preferir se adaptar às novas regras dentro dos próximos 180 dias e continuar as operações no país tendo o Estado boliviano como sócio majoritário, segundo o ministro dos Hidrocarbonetos, Andrés Soliz.
Mais de 80% do gás que garante o funcionamento de São Paulo é boliviano, ou seja, a Petrobras não tem interesse em fechar as válvulas porque isto afetaria diretamente o principal centro industrial do Brasil, disse o ministro.
Além disso, há a necessidade imperiosa, por parte do Brasil e da Argentina, do gás boliviano, acrescentou.
Soliz descartou, pelo menos no momento, a possibilidade de as transnacionais recorrerem a arbitragens internacionais porque as empresas sabem que, mesmo que ganhem, levará anos para executarem seus planos. No entanto, em Madri, a espanhola Repsol-YPF anunciou num comunicado que tomará todas as medidas para proteger seus ativos na Bolívia.
O grupo indicou que os serviços jurídicos da companhia analisam pormenorizadamente todas as implicações da nacionalização dos recursos petrolíferos e gasíferos da Bolívia para a segurança jurídica, as garantias de investimentos e a continuidade das atividades antes de tomar uma decisão a respeito.
A Repsol-YPF tomará todas as ações a seu alcance para proteger os ativos e preservar o emprego daqueles que trabalham direta e indiretamente na Bolívia, declarou o grupo. Através de sua filial Andina, a Repsol-YPF controla 25,7% da produção de gás na Bolívia.
A nacionalização dos hidrocarbonetos levou o presidente Luís Inácio Lula da Silva a convocar uma reunião de urgência e provocou um forte pronunciamento da estatal Petrobras. Já a chancelaria espanhola convocou o encarregado dos negócios bolivianos em Madri para comunicar-lhe a mais profunda preo-cupação com a medida que afeta a Repsol.
No Rio de Janeiro, Sergio Gabrielli, presidente de Petrobras, assinalou que a empresa tomará todas as medidas legais necessárias para preservar seus direitos. Gabrielli disse que a nacionalização foi uma decisão meramente unilateral, tomada de forma hostil e que nos obriga a analisar com muito cuidado a situação na Bolívia.
A Petrobras controla até agora 14,5% das reservas bolivianas de gás natural e tem um contrato de 13 anos para continuar operando no país. O governo espanhol antecipou que esta semana provavelmente quinta ou sexta-feira se reunirá com empresas dos países de língua espanhola presentes na Bolívia.
A União Européia manifestou sua preocupação com o anúncio de Morales e advertiu sobre a possibilidade de um impacto negativo no mercado
internacional.
O presidente da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), Jorge Alvarado, encarregado desde segunda-feira da cadeia produtiva petrolífera, revelou que os representantes da francesa Total foram os primeiros a pedirem informação ontem sobre os novos contratos.
Em La Paz o vice-presidente Alvaro García Linera confirmou que os campos petrolíferos e as refinarias permanecerão ocupados pelo exército até que sejam atingidos os objetivos do decreto de nacionalização. As empresas de petróleo continuarão a ganhar, mas agora serão lucros normais. Antes de o decreto ser emitido na Bolívia, explorar nossos recursos equivalia a acertar na loteria porque os lucros eram abusivos, disse.
O ministro da Defesa, Walker San Miguel, comunicou que as tropas vão permanecer 180 dias resguardando as jazidas, mas a partir de hoje (ontem) vão se retirar dos locais de abastecimento, dado o clima de tranqüilidade que prevalece no país.
Morales anunciou na segunda-feira a nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos. Em seguida, o Exército ocupou os 56 campos petrolíferos em todo o território. Acabou o saque a nossos recursos naturais, disse o presidente para justificar a medida.
Segundo Morales, cerca de 20 multinacionais deverão regularizar sua situação com novos contratos num prazo de 180 dias.


