La Paz - O governo do presidente boliviano, Evo Morales, aguarda com expectativa a resposta das multinacionais, constrangidas a renegociar os contratos ou sair do país. As instalações petrolíferas amanheceram ontem ocupadas por militares depois do anúncio, na véspera, da nacionalização dos hidrocarbonetos (petróleo e gás).
  O governo se mostrou confiante de que as empresas de petróleo vão preferir se adaptar às novas regras dentro dos próximos 180 dias e continuar as operações no país tendo o Estado boliviano como sócio majoritário, segundo o ministro dos Hidrocarbonetos, Andrés Soliz.
  ‘‘Mais de 80% do gás que garante o funcionamento de São Paulo é boliviano, ou seja, a Petrobras não tem interesse em fechar as válvulas porque isto afetaria diretamente o principal centro industrial do Brasil’’, disse o ministro.
   ‘‘Além disso, há a necessidade imperiosa, por parte do Brasil e da Argentina, do gás boliviano’’, acrescentou.
  Soliz descartou, pelo menos no momento, a possibilidade de as transnacionais recorrerem a arbitragens internacionais porque as empresas sabem que, mesmo que ganhem, levará anos para executarem seus planos. No entanto, em Madri, a espanhola Repsol-YPF anunciou num comunicado que ‘‘tomará todas as medidas para proteger seus ativos’’ na Bolívia.
  O grupo indicou que os serviços jurídicos da companhia ‘‘analisam pormenorizadamente todas’’ as implicações da nacionalização dos recursos petrolíferos e gasíferos da Bolívia para a segurança jurídica, as garantias de investimentos e a continuidade das atividades ‘‘antes de tomar uma decisão a respeito’’.
  ‘‘A Repsol-YPF tomará todas as ações a seu alcance para proteger os ativos e preservar o emprego’’ daqueles que trabalham direta e indiretamente na Bolívia, declarou o grupo. Através de sua filial Andina, a Repsol-YPF controla 25,7% da produção de gás na Bolívia.
  A nacionalização dos hidrocarbonetos levou o presidente Luís Inácio Lula da Silva a convocar uma reunião de urgência e provocou um forte pronunciamento da estatal Petrobras. Já a chancelaria espanhola convocou o encarregado dos negócios bolivianos em Madri para comunicar-lhe a ‘‘mais profunda preo-cupação’’ com a medida que afeta a Repsol.
  No Rio de Janeiro, Sergio Gabrielli, presidente de Petrobras, assinalou que a empresa ‘‘tomará todas as medidas legais necessárias para preservar seus direitos’’. Gabrielli disse que a nacionalização ‘‘foi uma decisão meramente unilateral, tomada de forma hostil e que nos obriga a analisar com muito cuidado a situação na Bolívia’’.
  A Petrobras controla até agora 14,5% das reservas bolivianas de gás natural e tem um contrato de 13 anos para continuar operando no país. O governo espanhol antecipou que esta semana – provavelmente quinta ou sexta-feira – se reunirá com empresas dos países de língua espanhola presentes na Bolívia.
  A União Européia manifestou sua ‘‘preocupação’’ com o anúncio de Morales e advertiu sobre a possibilidade de um ‘‘impacto negativo’’ no mercado
internacional.
  O presidente da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), Jorge Alvarado, encarregado desde segunda-feira da cadeia produtiva petrolífera, revelou que os representantes da francesa Total foram os primeiros a pedirem informação ontem sobre os novos contratos.
  Em La Paz o vice-presidente Alvaro García Linera confirmou que os campos petrolíferos e as refinarias ‘‘permanecerão ocupados pelo exército’’ até que sejam atingidos os objetivos do decreto de nacionalização. ‘‘As empresas de petróleo continuarão a ganhar, mas agora serão lucros normais. Antes de o decreto ser emitido na Bolívia, explorar nossos recursos equivalia a acertar na loteria porque os lucros eram abusivos’’, disse.
  O ministro da Defesa, Walker San Miguel, comunicou que as tropas ‘‘vão permanecer 180 dias resguardando as jazidas, mas a partir de hoje (ontem) vão se retirar dos locais de abastecimento’’, dado o clima de tranqüilidade que prevalece no país.
  Morales anunciou na segunda-feira a nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos. Em seguida, o Exército ocupou os 56 campos petrolíferos em todo o território. ‘‘Acabou o saque a nossos recursos naturais’’, disse o presidente para justificar a medida.
  Segundo Morales, cerca de 20 multinacionais deverão regularizar sua situação com novos contratos num prazo de 180 dias.

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