O primeiro-ministro Tony Blair convocou ontem eleições antecipadas para 7 de junho a fim de renovar o Parlamento Britânico e obter um segundo mandato de cinco anos em que pretende realizar um plebiscito para aprovar a adoção do euro na Grã-Bretanha.
Todas as pesquisas indicam uma vitória do governo trabalhista, que tem uma vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre a oposição conservadora, o que lhe daria uma maioria de 227 deputados na Câmara dos Comuns, de 659 cadeiras, mais do que as 179 obtidas em 1997.
Já a adesão ao euro enfrenta forte resistência. Seria o fim da libra, um símbolo do poder do antigo Império Britânico e a moeda que dominou o comércio e as finanças internacionais do início do século 19 até depois da Primeira Guerra Mundial. Vai ser um dos temas quentes da campanha.
Depois de ir ao Palácio de Buckingham pedir permissão à rainha Elizabeth II para dissolver o parlamento, o que deve acontecer na sexta-feira, Blair fez o anúncio numa escola do Sul de Londres para reafirmar o compromisso de fazer reformas e investimentos em serviços públicos, sobretudo em educação, saúde e transportes. O desinvestimento no setor público durante 18 anos de governos thatcheristas foi uma das principais razões da derrota dos conservadores quatro anos atrás. Mas os resultados até agora foram decepcionantes. As filas de espera para tratamentos não emergenciais no Serviço Nacional de Saúde aumentaram e o sistema ferroviário e o metrô de Londres ficaram ainda piores.
Se Blair vencer, será a primeira vez na história do país que o Partido Trabalhista obterá maioria absoluta em duas eleições consecutivas. A última pesquisa do instituto Mori deu 46% para os trabalhistas, 31% para os conservadores e 14% para os liberais-democratas. Isto elegeria 443 aliados de Blair, 158 conservadores e 30 liberais.
Depois de um primeiro governo marcado pela cautela para garantir o crescimento e o equilíbrio macroeconômico, tentando apagar a imagem negativa de governos trabalhistas anteriores, o primeiro-ministro promete ser mais ousado: ‘‘Estou pedindo um novo mandato para fazer mudanças radicais’’, disse. O ministro das Finanças, Gordon Brown, promete investimentos equivalentes a US$ 23 bilhões nos próximos anos para seduzir o tradicional eleitorado trabalhista, que o acusa de manter a política econômica dos conservadores.
Ao reunir o ministério para aprovar o programa do partido, Blair advertiu para a necessidade de combater a apatia do eleitorado de esquerda, admitindo que o governo trabalhista ‘‘não fez tudo o que o povo queria’’, que precisa entusiasmar o eleitorado e lutar pelo voto de cada um: ‘‘Esqueçam as pesquisas e os comentaristas. Está vai ser uma luta muito mais difícil do que se imagina.’’
Apesar das previsões de que seu partido sofrerá pela segunda vez seguida sua pior derrota desde 1832, o líder conservador, William Hague, declarou-se confiante: ‘‘Não dou muita importância para as pesquisas. Elas diziam que perderíamos as eleicões para o Parlamento Europeu dois anos atrás por 30 pontos percentuais e ganhamos com oito pontos de vantagem. Reconheço que estamos por baixo mas há milhões de pessoas insatisfeitas com o governo. Temos de dizer isso claramente. Eles não querem um segundo mandato; querem uma segunda chance.’’
Hague, acusado de levar o partido muito para a direita, tornando-o inelegível com suas acusações contra a União Européia e os candidatos a asilo político, pretende concentrar sua campanha em três pontos: cortes de impostos no valor de US$ 11,5 bilhões, seguindo a fórmula do presidente George W. Bush nos Estados Unidos, combate ao crime e a manutenção da libra.
Os conservadores acusam o governo Blair de aumentar a burocracia, de criar novos impostos e regulamentações que custaram US$ 21,6 bilhões às empresas britânicas e de não agir com a energia necessária contra o crime e os falsos candidatos a asilo, que seriam imigrantes econômicos interessados em se aproveitar da prosperidade britânica. Ao preservar a libra, evitariam a criação de um superestado europeu dominado pela Alemanha: ‘‘Esta é a última chance de salvar a libra’’, alerta Hague. ‘‘Num plebiscito organizado sob um governo trabalhista, eles vão usar todos os recursos do Estado para garantir a vitória.’’
Cerca de 70% dos britânicos resistem em adotar o euro mas os partidários da união monetária acreditam que uma campanha bem organizada, com apoio das empresas exportadoras e do centro financeiro de Londres, que temem ser marginalizados das decisões européias, possa reverter essa desvantagem. Há alguns meses, Hague fez um discurso radical, dizendo: ‘‘Sejam bem-vindos a uma terra estranha, a Grã-Bretanha, se Tony Blair conquistar um segundo mandato.’’
Soou radical demais, mas parece ser um bom tema para tentar reverter as expectativas em relação ao pleito.

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