Ricardo Bonalume Neto
De Díli, Timor Leste
Agência Folha
A capital de Timor Leste volta aos poucos à tranquilidade, e o risco de fome generalizada já é bem menor. Mais de 750 toneladas de arroz foram distribuídas ontem para a população de Díli, quantidade suficiente para alimentar, por um mês, as cerca de 70 mil pessoas hoje na capital.
A tranquilidade que marcou a distribuição, e o retorno do pequeno comércio de frutas e verduras no mercado próximo ao porto, mostram que a vida está aos poucos voltando ao normal na cidade.
Outro sinal da normalidade é o retorno hoje a Timor Leste do bispo de Díli, Carlos Ximenes Belo, Prêmio Nobel da Paz de 1996. Belo deve chegar a Díli pela manhã, acompanhado por autoridades portuguesas, e imediatamente seguir para Baucau para conversar com outro bispo timorense, Basílio do Nascimento.
Soldados da Interfet (Força Internacional para Timor Leste), incluindo brasileiros da Polícia do Exército de Brasília, foram destacados para policiar a distribuição, mas sua intervenção foi pouco necessária.
A maior parte das casas de Díli foi destruída quando a milícia pró-Jacarta e tropas indonésias começaram a abandoná-la. Por isso o próximo objetivo das organizações de ajuda humanitária é entregar detergente, panelas, lonas e telhas para cobertura, pois a estação chuvosa se aproxima.
Essa foi a maior entrega de comida para os timorenses desde o início da crise na ex-colônia portuguesa, há pouco mais de um mês. Em 30 de agosto, a população votou majoritariamente pela independência em um referendo organizado pelas Nações Unidas. Insatisfeitos com o resultado, grupos pró-Indonésia iniciaram uma onda de destruição de propriedade e de assassinatos.
Cerca de 70 mil pessoas receberam alimentos, segundo o brasileiro Marcos Athias Neto, gerente regional para Ásia e América Latina da organização não-governamental Care.
Quem coordenou a distribuição entre a população foi a Igreja Católica, uma das mais influentes instituições em Timor, e o CNRT (Conselho Nacional de Resistência Timorense), que reúne grupos pró-independência.
Athias Neto organizou a entrega do arroz em um dos seis pontos espalhados pela cidade, a casa do bispo Belo. Para ali foram enviados no início da manhã 1.082 sacos de arroz de 50 kg cada. A casa foi quase toda destruída pelas milícias. Uma casa menor, ao lado, estava ainda ontem sendo pintada e consertada para abrigar Belo.
A primeira leva de 869 sacos chegou em dez grandes caminhões e foi distribuída em tempo recorde: entre 6h30 e 8h30. Apesar do peso, os timorenses rapidamente carregavam os sacos para casa – para muitos deles, uma barraca de lona na praia ou um prédio incendiado ainda com paredes negras de fuligem.
‘‘Não sabemos ainda o nível de desnutrição. A olho nu, parece que não. Mas eles só comiam mandioca nas montanhas’’, diz Athias Neto. O brasileiro, nascido em Belém e há dez anos fora do Brasil, é veterano de outras missões de ajuda, como na América Central e em Bangladesh.
O arroz foi enviado pela Cruz Vermelha e pelo Programa Mundial de Alimentos. ONGs como a Care e a Visão Mundial cuidavam de organizar a distribuição.Organizações humanitárias distribuíram ontem 750 toneladas de arroz, afastando o risco da fome para 70 mil timorenses da capital
France PresseComidaCerca de 70 mil pessoas receberam alimentos suficientes para um mês. Próximo passo será reconstruir a cidade

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