Uma mensagem encontrada em um dos quatro corpos resgatados do submarino nuclear Kursk comprova que pelo menos 23 homens sobreviveram durante, no mínimo, duas horas depois que poderosas explosões mataram a maioria da tripulação, informaram ontem oficiais da Marinha russa.
A mensagem foi encontrada no bolso do tenente Dmitry Kolesnikov, cujo corpo foi um dos primeiros a ser recuperado entre os 118 homens que morreram a bordo do Kursk, naufragado em 12 de agosto.
Preso no submarino condenado no fundo do Mar de Barents, o marinheiro escreveu um breve relato de como ele e 22 de seus companheiros fracassaram numa tentativa de escapar e então rabiscou uma última mensagem para sua família.
Escrita poucas horas depois que o submarino pousou a 108 metros de profundidade, a mensagem conta uma horrorizante história em frases curtas.
‘‘Toda a tripulação dos sexto, sétimo e oitavo compartimentos foram para o nono. Existem 23 pessoas aqui. Tomamos esta decisão devido ao acidente’’, estaria escrito na mensagem, segundo o comandante da Marinha russa, almirante Vladimir Kuroyedov, durante uma reunião com familiares das vítimas. ‘‘Nenhum de nós pode ir à superfície’’, continuou a mensagem.
A primeira parte da nota foi manuscrita de forma limpa, disse Kuroyedov. Mas depois que se apagaram as luzes de emergência do submarino, o marinheiro de 27 anos, natural de São Petersburgo, começou com rabiscos e o desespero se instalou.
‘‘Estou escrevendo às cegas’’, informou o tenente nas últimas partes da mensagem. O resto da nota tem caráter privado e será mostrado para a família de Kolesnikov, disse o comandante do Estado Maior da Frota do Norte, vice-almirante Mikhail Motsak.
A maior parte da tripulação do Kursk aparentemente morreu instantaneamente nas explosões que abriram buracos nos seis primeiros compartimentos do Kursk, ou poucos minutos depois, quando a água entrou no submarino.
Mas o conhecimento de que alguns marinheiros permaneceram vivos por horas fez retornar o horror que tomou a nação depois do naufrágio.
‘‘Sinto dor, uma enorme dor’’, disse a viúva de Kolesnikov, Olga, à rede de televisão NTV. ‘‘Eu tinha um pressentimento de que meu marido não tinha morrido imediatamente. A dor que eu senti então era verdadeira.’’
Os corpos resgatados serão levados hoje para Severomorsk, o principal porto da Frota do Norte, para os funerais. O governo russo tem sido amplamente criticado pela lenta e aparentemente confusa resposta dada ao desastre.
Por diversos dias, minissubmarinos russos tentaram sem sucesso abrir a escotilha de escape do Kursk, apesar de posteriormente equipes de mergulhadores noruegueses terem conseguido cumprir a tarefa em poucas horas.
O governo russo só pediu a ajuda das equipes norueguesas quatro dias depois do naufrágio, apesar de países ocidentais terem oferecido colaboração pouco depois de ser divulgada a notícia do afundamento.
Enquanto transcorriam os esforços de resgate, houve notícias de que barulhos vindos do submarino poderiam ser de marinheiros batendo no interior do casco.
A mensagem de Kolesnikov não dá indicação de se algum tripulante sobreviveu além de poucas horas. Mostsak disse que a nota foi completada às 15h15, menos de quatro horas depois que navios na área registraram duas poderosas explosões que aparentemente danificaram o Kursk.
Igor Spassky, chefe da empresa que projetou o Kursk, disse numa entrevista coletiva que a tripulação teve alguma chance de sair sozinha pela escotilha de escape, mas que aparentemente não conseguiu devido a ferimentos.
Entretanto, se os marinheiros tivessem conseguido sair pela escotilha, não se sabe se poderiam sobreviver à imensa pressão da água ou se teriam condições de alcançar a superfície sem ser morta pela mudança de pressão.
O corpo de Kolesnikov foi um dos quatro recuperados por uma equipe russo-noruguesa depois de cinco dias de um desgastante trabalho realizado esta semana para abrir um buraco no topo do submarino.
Motsak afirmou que depois que a mensagem foi encontrada, os mergulhadores estavam concentrando seu trabalho na busca de corpos no nono compartimento, mas o mar revolto comprometeu ontem as operações.
A complexa operação subaquática está sendo realizada com equipamento de última geração, inclusive robôs e braços mecânicos. Para cortar o casco de aço do Kursk, de cinco centímetros de espessura, os mergulhadores utilizaram um instrumento que pulveriza água pressurizada misturada com pó de diamante.
As causas do desastre ainda são desconhecidas. Autoridades russas sugerem como possíveis razões uma colisão com um submarino ocidental, com uma mina da era da Segunda Guerra Mundial ou um defeito interno.