Associated Press
e France Presse
De Berlim
Os alemães começaram a festejar ontem o décimo aniversário da queda do Muro de Berlim, que transcorre hoje. Hoje, por ironia, a Justiça alemã confirmou pena de 6 anos de prisão para Egon Krenz, o ex-líder comunista alemão-oriental que abriu a fronteira da antiga Alemanha oriental dez anos atrás. Ele é acusado da morte de dezenas de alemães-orientais que tentaram cruzar o muro na época da guerra fria.
O ponto alto das comemorações de ontem ocorreu na prefeitura de Berlim. Ali, o prefeito Eberhard Diepgen concedeu o título de cidadão berlinense ao ex-presidente americano George Bush. A solenidade teve a presença do ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev e do ex-chanceler alemão Helmut Kohl, que, com o ex-presidente americano Ronald Reagan, são cidadãos da capital alemã desde 1992.
Kohl disse que Bush foi um ‘‘incansável’’ defensor da reunificação. ‘‘Há dez anos, ele (Bush) nos animou a prosseguir a grande tarefa, cujo êxito seria impossível sem os americanos.’’ Bush agradeceu e dirigiu-se ao presidente da ex-URSS: ‘‘Nós jamais conseguiremos pagar a dívida que temos para com Mikhail Gorbachev.’’ Hoje, Bush, Gorbachev e Kohl discursarão no plenário do Parlamento alemão.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, chegou ao fim o símbolo da divisão da Europa e da guerra fria: um acontecimento imprevisível, mas que foi precedido por profundas mudanças em Moscou, Varsóvia e Budapeste.
Novembro de 1989 viveu, em uma reação em cadeia, a decomposição do bloco comunista e a reunificação alemã. Mas a queda do muro foi apenas a resultante espetacular de uma lenta democratização da Europa Oriental, favorecida pela perestroika do presidente soviético Mikhail Gorbachev.
De abertura em abertura, Gorbachev terminou enterrando a doutrina da ‘‘responsabilidade limitada’’, que havia justificado a intervenção dos tanques do Exército Vermelho em Berlim Leste (1953), Budapeste (1956) e Praga (1968).
A diminuição da pressão soviética repercutiu na Polônia, onde as negociações com o sindicato Solidariedade desembocou, em 5 de abril de 1989, num compromisso. Em setembro, um governo democraticamente eleito assumiu o poder. Na Hungria, o chefe de Estado Janos Kadar foi destituído em 1988.
Em compensação, na RDA, assim como na Romênia e na Tchecoslováquia, o regime se endureceu. Como resultado, os alemães orientais começaram a deixar o país aproveitando a abertura dos países-irmãos. Em agosto de 1961, o Muro de Berlim havia sido construído para evitar o êxodo dos alemães orientais. Em 1989, a maré humana em direção ao Ocidente fez cair as barreiras.
Em 4 de novembro de 1989, um milhão de pessoas se manifestaram em Berlim Leste e centenas de milhares em outras cidades da RDA. Cinco dias mais tarde, o porta-voz do governo, Gunter Schabowski, anunciou com voz monótona algumas frases administrativas, cujo sentido, no entanto, era revolucionário: os alemães orientais estavam livres para deixar a RDA. Depois de algumas horas de incredulidade, uma multidão se dirigiu para o Muro. Os primeiros puderam passar. Eram 21h30. Depois, a avalanche humana teve início.
Harald Jaeger, de 56 anos, ex-coronel dos guardas da fronteira da RDA, foi quem tomou a iniciativa de deixar passar os primeiros alemães orientais para Berlim Ocidental. ‘‘Discuti com meus subordinados. Cheguei à conclusão de que a vontade do povo era mais forte do que o poder do Estado. Tudo que pude fazer foi abrir a barreira e deixar as pessoas passarem. Fiquei conversando com meus colegas até tarde daquela noite. Um deles disse: este é o fim da RDA’’.
Com a queda do Muro, veio à tona a verdade de que a RDA sobrevivia graças aos créditos ocidentais e foi revelada a magnitude da decomposição industrial da chamada ‘‘vitrina do socialismo’’.Alemanha comemora 10 anos da derrubada do ‘‘muro da vergonha’’, que abriu caminho para a reunificação do país dois anos depois
Arquivo Folha e France PresseEuforiaCerca de um milhão de pessoas comemoraram a reunificação em Berlim na noite de 3 de outubro de 1990, na porta de Brandenburgo. No destaque, da esq. p/ a dir.: Kohl, Gorbachev e Bush, ontem em Berlim

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