Bento XVI defende Igreja aberta, mas tradicional
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quarta-feira, 20 de abril de 2005
Igor Gielow<br> Folhapress 
Roma - Em sua primeira missa celebrada como Papa Bento 16, o alemão Joseph Ratzinger (pronuncia-se ''rátzingah''), tentou suavizar sua imagem de radical da ultra-ortodoxia católica e emitiu uma série de mensagens de diálogo e até conciliação.
Falou de união na Igreja, poder aos bispos, incentivo à pesquisa teológica, defesa do flexibilizante Concílio Vaticano II e até pregou o ecumenismo com outras denominações católicas, algo antes impensável durante seus 23 anos como guardião da doutrina da Igreja Católica em Roma. Não parecia o mesmo Ratzinger que, na missa que antecedeu o conclave, na segunda-feira passada, fez uma defesa veemente do que chamou de ''fé adulta'', inflexível às tentações do relativismo do mundo moderno e às mutações da vida globalizada.
O discurso, de tão duro, foi visto como uma peça paradoxal de campanha, já que poderia tanto ganhar votos como afastar cardeais eleitores indecisos. Prevaleceu a primeira opção. A quantidade de sinais impressionou até os derrotados no conclave. ''Devemos dar um voto de confiança ao novo Papa'', disse o cardeal dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, que era visto como uma alternativa latino-americana para o trono de São Pedro. ''O Papa poderá surpreender'', disse.
Foi rebatido por um cardeal explicitamente pró-candidatura Ratzinger, o arcebispo do Rio, dom Eusébio Oscar Scheid: ''Quem o critica não o conhece''.
''Não tenha medo'. Os recados de Bento 16, que será entronizado durante uma missa na manhã do próximo domingo, vieram em forma de sua homilia, lida como de praxe em latim na primeira missa como Papa, realizada em frente aos 114 cardeais que participaram de sua eleição ontem.
Como confirmou o cardeal brasileiro dom Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foram quatro as votações que levaram à escolha em 24 horas. A missa foi rezada na capela Sistina, um dos maiores tesouros artísticos do Vaticano, onde ocorreu a votação.
Bento 16 fez vários elogios ao seu predecessor, João Paulo II, de quem foi braço direito como responsável pela defesa da doutrina da Igreja. Atribuiu a ele sua eleição: ''Parece que sinto sua mão forte apertar a minha, vejo seus olhos sorridentes e ouço suas palavras, dirigidas a mim neste momento especial: ''Não tenha medo''.
Disse também que sentia o peso de ''sua incompetência'' para a missão, mas que se apoiava no exemplo de Karol Wojtyla para continuar. Insistindo na imagem de humildade da primeira fala como Papa ontem, no balcão da basílica de São Pedro, disse que falava ''com simplicidade e afeto''. E desfiou um rosário de temas.
O mais surpreendente foi a defesa do ecumenismo cristão. ''O sucessor de Pedro assume como compromisso primário trabalhar sem economizar energias na reconstituição plena e visível da unidade dos seguidores de Cristo e promover os contatos e entendimentos com os representantes das diferentes igrejas e comunidades eclesiásticas.''
João Paulo II também foi um grande defensor do ecumenismo, promovendo encontros inter-religiosos. Mas, longe das fotos do Papa em sinagogas ou mesquitas, era justamente Ratzinger quem defendia a Igreja Católica como única herdeira real de Jesus Cristo e ''mãe'' de todas as outras igrejas, e não ''irmã'', como escreveu em 2000, para causar até um constrangimento público a Wojtyla, que foi cobrado pelo patriarca grego de Damasco sobre sua real intenção no ano seguinte.
Além disso, em tese Bento 16 se abre ao que os cardeais chamam de ''seitas'', ou seja, as denominações evangélicas pentecostais que disputam espaço com a Igreja de Roma em lugares como o Brasil. O que de fato irá acontecer, só o tempo dirá. Mas causou surpresa, ainda mais após sua eleição em estilo ''trator'', ver Ratzinger fazer um apelo ''àqueles que seguem outras religiões''.


