São Paulo A três dias de completar seu primeiro ano como líder maior dos católicos, o papa Bento XVI pode ser descrito pelo menos até agora como aquele que ''não é''. Conforme já se previa, não é presente nem carismático como João Paulo II, seu antecessor. E, contrariando as expectativas, não é autoritário nem dogmático como o cardeal Joseph Ratzinger, sua identidade antes de ser eleito papa.
''Bento XVI é um papa cinza, sem cor'', afirma o jornalista Juan Arias, que por 14 anos acompanhou o dia-a-dia da cúpula católica como correspondente do jornal espanhol El País no Vaticano. ''Ele é mais meditativo e contemplativo.''
Durante 24 anos, Bento XVI foi o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. À frente da versão moderna do Tribunal do Santo Ofício, o cardeal Ratzinger foi o homem mais temido do Vaticano bem mais que o papa João Paulo II. Nesse período, perseguiu e silenciou religiosos progressistas. O que sobrou do inquisidor? Em novembro, Bento XVI acabou com a autonomia dos frades franciscanos de Assis, na Itália, considerados liberais demais. Mas a mão de ferro não foi muito além disso. ''A expectativa geral era que houvesse uma caça às bruxas ou algo assim. Mas o papa não criou grandes choques até agora'', constata o teólogo Jung Mo Sung, professor da Universidade Metodista de São Paulo.
Juan Arias acredita que, para ser eleito, Bento teve de firmar um compromisso com os cardeais liberais: não seria tão severo quanto na época da Doutrina da Fé. Possivelmente tentando se livrar do carimbo de inflexível, o papa aceitou conversar em setembro com o teólogo suíço Hans Kung, um de seus maiores críticos.
Do pop ao reservado O alemão Joseph Ratzinger, que completa hoje 80 anos, foi eleito papa no dia 19 de abril do ano passado, por seus colegas cardeais. João Paulo II havia morrido no dia 2 daquele mês, depois de 26 anos de papado. Desde que assumiu a Santa Sé, Bento XVI tem procurado homenagear seu carismático antecessor. O mais incisivo dos tributos ocorreu em maio, quando apressou o processo de beatificação de João Paulo II um dos primeiros passos em direção à santificação.
Apesar de ambos terem tido uma relação próxima na Santa Sé, Bento é muito diferente de João Paulo na personalidade. Enquanto o polonês aparecia nos jornais e na TV esquiando nos Alpes ou viajando pelas regiões mais remotas do planeta, o alemão é fotografado e filmado praticamente só nas cerimônias da Basílica de São Pedro.
''João Paulo era ator e conhecia bem os meios de comunicação. Aparecia sempre com glamour'', afirma Arias. O último papa fez mais de 100 viagens para fora da Itália. Bento XVI, por outro lado, fez uma única viagem internacional. Foi à Alemanha, sua terra natal, em agosto, para participar da 20 Jornada Mundial da Juventude.
Para Mo Sung, a discrição é uma qualidade. ''Na sociedade há uma certa ansiedade por shows, artistas e escândalos. Se o papa entrasse nessa lógica, estaria cedendo a uma moda. A Igreja precisa fazer o contraponto, não reproduzir a lógica cultural da sociedade. Bento faz bem em não ser um pop star.''
Por ora, a única característica marcante do pontificado de Bento XVI é o continuísmo. Já deixou claro que não vai inovar em questões cruciais da prática católica o celibato continua obrigatório aos padres, as mulheres não chegarão ao sacerdócio e as uniões homossexuais não serão aceitas, assim como o aborto e as pesquisas científicas com embriões. Algo natural, já que o cardeal Ratzinger foi um dos pilares do papado de João Paulo II na defesa dessas questões.
''Bento XVI ainda não está procurando estabelecer grandes idéias'', diz o padre Érico Hammes, professor de Teologia da Puc/RS. ''Está discretamente se colocando a par do que acontece.''

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