Agência Folha
De São Paulo
O presidente chileno, Eduardo Frei, entrou na campanha por sua sucessão pela porta dos fundos. Conseguiu regime de urgência para que o Congresso votasse uma profunda reforma da legislação trabalhista.
O projeto foi derrotado na quarta-feira pelo Senado. Frei acusou ‘‘as forças da direita pinochetista de não se preocuparem com a sorte dos assalariados.’’ Procurou, com isso, balançar o candidato presidencial da direita, Joaquín Lavín Infante.
Este, no entanto, prevendo o golpe, disse que o governo foi derrotado pela divisão da bancada da Democracia Cristã (o partido do atual presidente) e lembrou que o ministro do interior, Raúl Troncoso, qualificara o projeto de ‘‘ruim para os trabalhadores’’.
É previsível que a polêmica persista até a votação de domingo e que dela saia até vencedor o candidato governista, Ricardo Lagos, que ganhou um pretexto para reverter, em seu benefício, o discurso pelo social apropriado por seu adversário.
Mesmo assim, o projeto acabou por mexer numa das feridas da história recente do Chile. Previa que aumentos só fossem discutidos em negociações coletivas – o que reforçaria o poder dos sindicatos – expandia os direitos dos trabalhadores temporários e proibia que as empresas contratassem mão-de-obra para a substituição de grevistas.
São benefícios semelhantes aos que vigoravam durante o governo do socialista Salvador Allende, que morreu durante o golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet em 1973. Foi durante o regime militar que essas vantagens foram abolidas.
Duas das confederações empresariais qualificaram a proposta do governo de ‘‘um recuo que encareceria as exportações chilenas e desestimularia novas contratações. Segundo uma delas, o desemprego dificilmente voltaria a cair mais abaixo dos 10%.
O fato é que, se o mercado é hoje consensual – nem os comunistas exigem estatizações – e poucos contestem o modelo exportador, o custo social dessa economia acabou entrando de última hora na agenda eleitoral. (J.B.N.)

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