São Paulo - As eleições municipais na Espanha, que acontecem hoje, são tratadas pelos principais partidos como uma batalha do fim do mundo. ''Votar nos socialistas é fortalecer o ETA'', atacou o líder da oposição, o conservador Mariano Rajoy. ''Que azar da Espanha ter uma direita tão retrógrada'', retrucou o primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero. ''Votar pela esquerda é votar pela convivência.''
Nos últimos três anos, o grau de gritaria e absoluta falta de consenso em qualquer assunto domina a vida política espanhola. Tanto que, segundo pesquisa recente, a ''crispação política'' tornou-se um dos principais problemas do país, junto com o terrorismo, desemprego, imigração ilegal e drogas.
Tal irritação contrasta com a transição democrática espanhola. Após o fim da ditadura, em 1975, sob a autoridade do rei Juan Carlos 1º, de herdeiros do franquismo a comunistas chegaram a diversos consensos, os Pactos de Moncloa, e deixaram para trás a violência da Guerra Civil (1936-1939) e da ditadura franquista (1939-1975). Até uma tentativa de golpe foi debelada sem tiros.
Nas últimas décadas, a esquerda aceitou e promoveu a abertura econômica e as privatizações, enquanto a direita nem ousou reduzir o sistema de bem-estar social, aperfeiçoado sob os socialistas. Hoje, apesar de não se discutir mais a economia nem os gastos sociais do país, a convivência desandou.
Discute-se por tudo e com ataques pesados de lado a lado. O ex-premiê direitista José María Aznar acusou Zapatero de estar levando o país a ''um clima de guerra civil, que tivemos há 70 anos''.
Na polarização da política espanhola, os dois lados não deixam de provocar mais crispação. ''Zapatero busca a lembrança sectária da Guerra Civil, já quebrou o consenso constitucional ao pactuar com nacionalistas e radicais e rompeu o acordo antiterrorista ao negociar com o ETA'', disse à reportagem o porta-voz do oposicionista Partido Popular no Congresso, deputado Miguel Ángel Cortés.
''A transição teve sucesso porque os espanhóis decidiram olhar para a frente, superar enfrentamentos, baseando a convivência em acordos entre os dois grandes partidos nacionais. Zapatero quer romper esse consenso que seus antecessores, Felipe González e José María Aznar, mantiveram.''
O terrorismo é um dos temas das eleições, em que as questões municipais ficaram em segundo plano. Zapatero passou boa parte de 2006 prometendo o início do fim do ETA, que declarou cessar-fogo em março do ano passado. O governo começou a negociar com o ETA, atitude criticada pelos conservadores, que defendem o combate aos terroristas.
Não deu certo. Um atentado no aeroporto madrileno de Barajas em dezembro matou dois equatorianos e jogou pelos ares a trégua. Segundo a oposição, o governo foi ingênuo e desinformado no trato com os terroristas. Em janeiro, a popularidade de Zapatero caiu a 40%, a menor em três anos de governo.
''Zapatero é um provocador, abriu várias frentes de batalha em um só mandato, e acredita que está fazendo o bem'', diz a socióloga Josefina Elías, diretora do instituto de pesquisas Opina, de Madri.
Quanto às eleições, Madri e Valência devem continuar nas mãos dos conservadores, e Barcelona e Sevilha com a esquerda. Pouco deve mudar em meio ao bate-boca.

mockup